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3606 I SÉRIE - NÚMERO 87

percebeu a figura ridícula que aqui fez no Parlamento aquando da interpelação sobre os acontecimentos da greve geral do dia 12 de Fevereiro nunca perceberá nada. Mas o que está em jogo não é que ele perceba ou não perceba. Por isso, porque é um Ministro indigno do Portugal democrático, deve ser demitido, como dissolvida deve ser a Polícia de Intervenção, que sob a sua responsabilidade praticou os negros actos da madrugada do 1.º de Maio no Porto.

Aplausos do PCP, do MDP/CDE e da UDP.

Mas responsável com o Ministro Ângelo Correia é todo o governo da AD.

Sr. Presidente, Srs. Deputados: O Partido Comunista Português, com a sua profunda confiança nas forças imensas da democracia, na unidade e na luta dos trabalhadores portugueses, saúda a decisão do movimento sindical unitário em usar mais uma vez um direito que eles conquistaram e que os constituintes lhes reconheceram.
A AD cairá. Não conseguirá impor o regresso. Amanhã, centenas de milhar de homens e mulheres, trabalhadores e trabalhadoras, estarão a defender o Portugal da liberdade, o Portugal de Abril, o Portugal tolerante, da paz, do progresso e determinado, que não voltará para trás porque a democracia tem mais força.

Aplausos do PCP e do MDP/CDE.

O Sr. Presidente: - Srs. Deputados, estamos no limite do período de antes da ordem do dia.
O Sr. Deputado Sousa Tavares, logo no início da declaração do Sr. Deputado Jerónimo de Sousa, tinha feito sinal de que pretendia interpelar a Mesa.
Se ainda o deseja fazer, tem a .palavra para esse efeito.

O Sr. Sousa Tavares (PSD): - Sr. Presidente, esse desejo está ultrapassado. De facto, o Sr. Deputado Jerónimo de Sousa...

O Sr. Carlos Brito (PCP): - Não pode protestar!

O Orador: -... fez um protesto numa altura em que o não o devia ter feito.

A Sr.ª Zita Seabra (PCP): - Essa é boa! Porquê?

O Orador: - O Sr. Deputado devia ter pedido a palavra para o protesto quando o Sr. Deputado Rui Amaral estava a intervir ou quando ele acabou.

A Sr.ª Zita Seabra (PCP): - Deve ser por que é depois do almoço!

O Orador: - Não era depois, na altura em que vai fazer uma declaração política, que o devia ter feito.
Acho, portanto, que a Mesa deveria ter reparado nisso.
O Sr. Presidente:- Sr. Deputado, respondendo à sua interpelação, diria que uma declaração política pode ser, naturalmente, proferida de improviso ou a partir de um texto escrito.
Cabe ao deputado que o faz escolher os termos em que deseja afirmar-se. Se um deputado pretende iniciar uma declaração política por palavras de protesto, mesmo em relação a qualquer coisa de recente, penso que não está nos poderes da Mesa limitar-lhe essa pretensão, muito embora o Sr. Deputado pudesse, eventualmente, ter feito o seu protesto, do seu lugar, antes de começar a declaração política.
Ficam inscritos para formular pedidos de esclarecimento, os Srs. Deputados Leonel Rita e Rui Amaral.
Tem a palavra, para uma declaração política, o Sr. Deputado Luís Marinho.

O Sr. Luís Marinho (PS): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Se para nós a questão dos cereais tem a ver com a subsistência dos portugueses, para outros ela tem a ver com a abastança de alguns, portugueses ou não. É que, pela própria lógica das coisas, o negócio dos cereais é um negócio sofisticado nos seus meandros, volumoso em termos financeiros e chorudo em termos de lucro. Basta lembrar que só no primeiro semestre de 1981 a produção industrial de alimentos à base de cereais, quer para o consumo humano quer para o consumo animal, ultrapassou os dois milhões de toneladas, com um valor da ordem dos 24,5 milhões de contos, o que dará, em estimativa, um volume de 50 milhões de contos a preços de 1981.
Ora, Sr. Presidente e Srs. Deputados, a importância dos negócios, mede-se pelo seu volume e não é novidade para ninguém que por detrás deste «balúrdio» de dinheiro se vem movendo, desde há muitos anos a esta parte, interesses comerciais, industriais e financeiros poderosos, como, aliás, já ficou bem patente aquando da questão da liberalização do comércio de cereais e eliminação do monopólio da EPAC por proposta do anterior Governo, que desembocou numa comissão parlamentar de inquérito, como estamos lembrados.
Mas se muitos sonhos ficaram adiados e mesmo se alguns projectos se suspenderam à luz das dificuldades colocadas então pelas pressões da opinião pública e pela consequente atitude desta Assembleia, isto é, se o funcionamento transparente da democracia e a acção fiscalizadora desta Câmara impediram, pelo menos momentaneamente, que o processo de liberalização do comércio e importação de cereais, e consequente destruição da EPAC, se materializasse, nem por isso a questão global se encontra encerrada, sendo já claro que agora, por outra via, se vão preparando as coisas para que o resultado sonhado seja possível.
Não diminui, de facto, a gula dos que teimam em fazer da alimentação dos portugueses o pasto preferido da sua fome de dinheiro!
Sr. Presidente, Srs. Deputados: A agitação que se pressente no sector das moagens, as preocupações expressas por alguns industriais a membros do Governo, notícias vindas a público nos órgãos de comunicação social, a recente substituição do conselho de administração da empresa Portugal e Colónias, a sucessão cronológica e causal de certos factos relevantes, tudo isso analisado à luz do princípio elementar de que estão em jogo negócios muito rendosos e ambições de industriais e homens de influência com passado conhecido no sector da grande moagem não são elementos desprezíveis para que não se possa concluir que algo mexe e se encontra em andamento neste campo de actividade económica.