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21 DE JUNHO DE 1985

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Em primeiro lugar, porquanto um pouco por toda a parte e, muito claramente, em Portugal, os meios de comunicação social funcionam muitas vezes como o espelho para a madrinha da Branca de Neve.
A fealdade era apenas reproduzida. Partir o espelho não alterava, realmente, a situação.
Como não adianta, culpar os jornalistas da revelação de factos. O importante são os factos, a sua existência e o seu significado.
Nem se diga, em contrário, que designadamente em Portugal prevalecem a encenação e o artificialismo que ficou conhecido como a criação de «factos políticos».
A «experiência» está condenada a prazo. Não é realmente possível iludir os problemas, nem eternamente desviar as atenções do essencial.
A isto acresce que, tenha ou não razão João Martins Pereira quando afirma que:

Os partidos políticos são meras forças eleitorais, que não conseguiram [...] aprofundar a sua influência ideológica ao ponto de beneficiarem de uma «hegemonia de classe» e poderem daí colher uma autoridade que não venha a ser directamente posta em causa nas eleições seguintes, certo é que nunca no Portugal recente o poder conseguiu ser uma força tranquila (in No Reino dos Falsos Avestruzes, p. 88).

Mesmo quando surgiu com uma dinâmica e um sentido de afirmação - caso do primeiro governo Sá Carneiro - o eleitoralismo e a intranquilidade que ele revela, tiveram influência dominante.
O poder político tem vivido entre nós sempre em sobressalto, em permanente inquietude.
Quem está ou se sente inseguro, tem maior dificuldade em admitir ser posto em questão. Daí a ter como primeiro cuidado o controle da informação, é apenas um passo.
3 - A reacção dos nossos principais dirigentes político-partidários à crítica, é, aliás, esclarecedora. Só poderemos louvar-nos, todos, pelo facto de, pelo menos, até à data, não parecer procurar-se inteira similitude entre os processos praticados na vida interna partidária e os que se desejam ver ou fazer actuar no conjunto nacional.
O processo de silenciamento, marginalização, afastamento ou corrupção da crítica e dos opositores à liderança nos principais partidos políticos portugueses, não é, de facto, particularmente edificante.
Não lhe faltaram nem as manobras de «contra-informação» nem os julgamentos populares.
Como poderemos estranhar que os mesmos homens políticos que não admitem vozes insubmissas ou discordantes e outro julgamento que não o louvor, manifestem no seu relacionamento com a informação o mesmo desejo de serem «admirados», «tranquilizados», «confortados»?
É que se aferíssemos a nossa vida democrática pelo comportamento do poder face à comunicação social, não creio que pudéssemos chegar a resultados diferentes dos do escândalo.
Mas vale a pena sublinhar que o que está em causa é, realmente, uma concepção de democracia.
A informação é o «inimigo n.º 1» quando se teme que seja ela a assumir o papel de revelar que «o rei vai nu». No fundo, recusa-se ao povo tantas vezes invocado o direito de saber e, portanto, de criticar com validade.

Por isso, a comunicação social e o seu relacionamento com o poder, como o relacionamento do poder com a comunicação social, são reveladores, do que uma sociedade tem em si de mediocridade e de conformismo, de inquietude e de generosidade.
4 - A ideia que fazemos da comunicação social em termos de sociedades políticas ocidentais é, ainda, a ideia liberal de prolongamento da liberdade individual, particularmente da liberdade de opinião.

Só que aqui regressamos à ambivalência. É por assim entenderem que os governados exigem a eliminação de todas as barreiras e entraves.

E é também por assim a entender que o poder pretende regulamentá-la.
Afinal, talvez o cerne da questão seja, ainda, uma outra interrogação.

Pretende-se que informar é fazer conhecer a voz da opinião pública. Mas como se manifestava essa voz, antes de os meios de comunicação a revelarem? Será possível uma opinião preexistente à expressão que a formula? Não serão, no fim de contas, os jornalistas, ao mesmo tempo, os intérpretes e criadores da opinião pública?
5 - Continuamos, em Portugal, a precisar de colocar todas estas interrogações, para descobrir que a realidade da informação pública é, também ela, multifacetada.

Talvez a democracia seja, antes de mais, a humildade de não nos considerarmos detentores únicos da verdade.

Como, de forma notável, escreveu Edgar Morin:

A democracia não se baseia, como durante muito tempo se julgou, na ideia de que o homem é racional e que a sua voz colectiva é a verdade. A democracia não se baseia na superioridade racional da maioria sobre as minorias. Ao contrário, a democracia supõe que não há uma Fonte evidente de verdade e de Racionalidade, e baseia-se na fecundidade dos antagonismos. A democracia, na sua natureza, última e profunda, é a regra do jogo que permite a expressão e a confrontação dos antagonismos.
[... ] A democracia supõe/exige, portanto, que a crença mais absoluta respeite a regra que a relativiza (in Da Natureza da URSS, pp. 130-131).

Por isso mesmo, a democracia nos obriga à contenção, à moderação, que é, afinal, rigor.
6 - Precisamos de saber para agir. Para participar.

É a informação que nos torna cidadãos.
Que anuncia o que passou na nossa cidade, no País, no Mundo.

Que confronta as opiniões e difunde a cultura. Que dizer, que é a informação que nos liga aos outros, estabelecendo um fluxo que actualiza e alimenta a comunidade humana.
Na sugestiva imagem de Bernard Voyenne é como se uma gigantesca rede universal fosse sendo tecida, cruzando fios entre todos os homens, não só no espaço, como no tempo, porque se trata também de ligar gerações. Por isso, sublinha Voyenne, quebrar um só desses fios, é «quebrar alguma coisa no Mundo».
Ou, numa outra conhecida imagem, a informação é um «oxigénio» novo sem o qual não respiramos livremente.