1 DE FEVEREIRO DE 1991 1237
Com efeito, começava logo por ser muito difícil descortinar, no exame dos respectivos programas, na sua indefinição, diferenças substanciais que permitissem situá-los politicamente e diferenciar as respectivas ideologias. Durante todo o período do chamado rotativismo parlamentar nenhum desses partidos soube construir e propor ao povo português um projecto colectivo, original e aliciante, capaz de galvanizar as energias da Nação para uma arrancada de progresso e de desenvolvimento autênticos. Bem pelo contrário, desbaratavam-se imprudentemente os parcos recursos do País.
O rotativismo resumia-se em fazer «rodar» ciclicamente regeneradores e progressistas nas cadeiras do poder; sendo certo que, com uma ou outra honrosa excepção, eram sempre os mesmos homens que «rodavam» ao serviço dos mesmos interesses pessoais e de idênticas maquinações políticas.
Em tempo de eleições, sem teorização ideológica que os diferenciasse, os partidos não se apresentavam a concorrer com propostas específicas. Para alcançar maiorias a fraude eleitoral substituia-se ao vazio de ideias; e era pela intervenção dos caciques e dos chamados «influentes», que se exercia toda a sorte de pressões. Frequentemente, tudo acabava na viciação dos resultados eleitorais.
Além disso, as sucessivas cisões e dissidências ocorridas nesses dois partidos mais contribuíram para que se intensificasse o seu descrédito e o do regime. E cada dia que passava mais fundo era o fosso que se abria entre o sistema e o País real. Vivia-se, pode dizer-se, num desalento generalizado.
Augusto Fuschini, ministro da Fazenda de um governo regenerador, escrevia: «Para alcançarem os favores das camarilhas palacianas os partidos e os homens públicos cometem as últimas baixezas.» Era, portanto, de dentro do próprio sistema que se lhe denunciavam os defeitos e os vícios.
E Alexandre Herculano, carácter de bronze e português sem mácula, no seu refúgio de Vale de Lobos, de tudo desencantado, tudo resumia naquela frase que ficou tristemente célebre: «Isto dá vontade de morrer.»
Em Janeiro de 1890 ocorreu a grave e delicada crise diplomática entre Portugal e a Grã-Bretanha que veio a culminar no ultimatum. Não cabe nesta breve intervenção a detalhada análise das circunstâncias em que esse incidente se desenvolveu; mas o que é fundamental referir e que ele teve como efeito arrancar o País à letargia em que há muitos anos vinha vivendo.
O povo português sentiu essa crise com exaltada emoção, a qual vibrou no mais fundo da sua consciência colectiva.
Imediatamente surgiram diversas e continuadas afirmações de patriótica indignação e repulsa, sentimento esse que em breve se estendia ao regime monárquico e à própria pessoa do rei.
Todo o ano de 1890 foi vivido em continuadas demonstrações do orgulho nacional, agora desperto para as duras realidades que envolviam o País. Um número cada vez maior de portugueses ansiava por «vida nova» - como então se dizia - e, como uma onda que se propaga, ia-se generalizando a ideia de que a mudança e o resgate da Pátria eram já incompatíveis com a subsistência do regime monárquico.
Por outro lado, a recente proclamação da República no Brasil constituiu poderoso reforço para a difusão do ideal republicano que por toda a parte alastrava. E a esse sentimento popular aliava-se a intervenção da inteligência portuguesa.
Foram Guerra Junqueira e Fialho de Almeida, o primeiro com os seus versos vibrantes, o segundo com a sua virulência de panfletário; foi a Liga Patriótica do Norte, da iniciativa de Antero de Quental, de efémera duração, é certo, mas que (...) personalidades dos mais diversos credos e provenientes dos mais diversos estratos sociais; foram Alfredo Keil e Lopes de Mendonça compondo A Portuguesa, que logo andou na boca e entrou nos corações de muitos portugueses.
Era, enfim, toda a acção da geração de 70 que, pela poesia, pelo romance, pela historiografia, pelo ensaio crítico, porfiadamente prenunciara as profundas mudanças de que Portugal carecia.
O republicanismo ultrapassou então a categoria de mera opção política: como escreveu Joel Serrão, «a angustia e a revolta levaram um número cada vez maior de consciências a entreverem na solução republicana uma via, senão uma panaceia, com o seu quê de miraculoso para os males da Pátria». O ideal republicano surgia assim como o único caminho de salvação nacional.
Não surpreende, portanto, Srs. Deputados, que nos finais de 1890 e princípios de 1891 se conspirasse abertamente.
No Porto, Alves da Veiga aliciava o general Correia da Silva e muitas outras individualidades civis e militares; João Chagas, na República Portuguesa, incitava, de maneira expressa, o exército a revoltar-se. Por isso, foi inevitável que chegasse às autoridades militares o conhecimento do que se preparava. Como medida dissuasora foi ordenada a transferência, para outras guarnições, de numerosos militares já comprometidos na revolta. Face a esta inesperada situação, os organizadores do movimento optaram pela acção imediata.
Na madrugada de 31 de Janeiro, contingentes de Caçadores 9 e de Infantaria 10 convergiram para o campo de Santo Ovídio. Das numerosas individualidades civis e militares comprometidas no movimento, muitas foram as que faltaram. Só dois oficiais honraram os compromissos assumidos - o capitão Amaral Leitão e o tenente Coelho.
O alferes Malheiro, ainda que republicano, nem sequer estava comprometido com a revolução. Porém, quando as forças da sua unidade passaram junto do local onde exercia as suas funções e o convidaram a assumir o seu comando, o honrado oficial, por puras razões de brio e solidariedade militares, aceitou. Foi essa a causa da sua participação no movimento.
A República foi proclamada por Alves da Veiga, da janela da Câmara Municipal, e, de seguida, as forças revoltadas subiram a Rua de Santo António. Era já manhã clara e acompanhavam-nos agora uma multidão de civis, que davam largas ao seu júbilo, aclamando a Pátria e a República.
Todavia, ao cimo da rua, em posições de combate, deparou-se-lhes um forte contingente da Guarda Municipal. Amaral Leilão, que comandava a força republicana, conservou até ao final a ideia ilusória, quase a roçar pela ingenuidade, de que não tinha opositores. Por isso, nem por um momento acreditou que a Guarda Municipal lhe iria ser hostil. Os seus homens, de resto, nem sequer seguiam em dispositivo de combate, mas antes como se desfilassem em parada festiva: marchava-se ao som de A Portuguesa; e, quer das janelas, quer acompanhando na rua a força republicana, uma multidão de civis a aclamava.
Subitamente, a Guarda Municipal abriu fogo sobre a coluna que subia a rua, matando vários civis e militares. Travou-se combate e, ao fim de algum tempo, os revoltosos conseguiram recuar até ao edifício da Câmara, onde se