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29 DE MARÇO DE 1957 483

(...) de determinar o nível, assentando nos meios em que um satisfatório equilíbrio se deve verificar. E, depois, porque a alimentação está na base da primeira preocupação material do homem, a importância no campo social da sua possibilidade é por natureza evidente.
Que o assunto se estude no agrupamento familiar é evidentemente, compreensível também, dado que nas sociedades do tipo da nossa a casa, no sentido de meio de família, é, essencialmente, um centro de produção de possibilidades, pelo que respeita ao facto de que o trabalho agrupado sob a égide do seu chefe tem de prover às necessidades vitais dos indivíduos que o compõem; e, se é certo que em diversos agrupamentos rurais a casa, no sentido ainda do grupo familiar, é a última etapa da produção alimentar pelo que toca às possibilidades diversas da caça, da pesca ou da agricultura, certo é também que na maior parte dos centros operários, do funcionalismo público, dos servidores do Estado e dos empregados comerciais só a prestação de trabalho a outrem conta como meio de obter possibilidades para satisfação das necessidades familiares.
Pelo que toca à composição alimentar, não podemos pensar talvez ainda entre nós numa política dietética capaz de considerar devidamente a raça, o trabalho, a idade e o clima, visto o problema se apresentar dominante, por enquanto, no aspecto quantitativo; mas os trabalhos que respeitam à alimentação dos povos tomaram já um incremento tal que há normas gerais acreditadas sobre as quais se pode raciocinar com a segurança precisa no campo da generalidade e das médias, muito embora.
De facto, a partir dos trabalhos realizados pela secção de higiene da Sociedade das Nações, entre 1930 e 1940, dos da F. A. O. (pela sua secção de nutrição), dos das organizações técnicas da O. N. U., materializados particularmente na World Population Conference, de Roma, em 1954, dispomos de elementos valiosos que nos permitem analisar e comparar.
Sabemos qual o número de calorias que, em média, o indivíduo precisa de ver supridas em determinadas circunstâncias, conhecemos o valor calórico dos princípios alimentares imediatos -tais como o das proteínas dos hidratos de carbono e das gorduras -, não nos faltam elementos para as dosagens relativas desses mesmos princípios alimentares, a par das dos sais minerais e das das vitaminas indispensáveis, etc.; conhecido, por outro lado, o volume demográfico e a composição etária da população de determinada região ou de determinado país, sabendo-se qual o valor provável do seu produto nacional bruto, dos proventos correntes e do custo da alimentação e das outras necessidades caseiras, podemos ter uma ideia aproximada das necessidades orçamentais familiares e, consequentemente, do poder de compra médio dessa população.
Dizer-se que um determinado país dispõe duma determinada média de consumos não quer, evidentemente, dizer que essa média corresponda exactamente aos quantitativos deveras consumidos pelos seus habitantes em geral; de facto, a desigualdade de proventos, perante as variadas necessidades de cada agregado familiar, traduz-se por uma variação - as vezes muito sensível - nas possibilidades de nada um com vista a suprir as suas necessidades alimentares mais instantes.
Em Portugal, então, este aspecto particular do problema apresenta-se sob uma forma deveras delicada; por isso mesmo o processo de determinação do custo de vida entre nós - por determinação do poder de compra da maioria da gente portuguesa - que vamos adoptar procura exactamente corrigir o erro que se cometeria, com certeza, partindo dos valores médios que a estatística aponta, com todas as suas deficiências, incorrecções e lapsos.
Deste modo se evitarão até naturais discordâncias que se podem observar entre as conclusões a que chegaram, e chegam, alguns estudiosos entre nós; na realidade, o preço das calorias alimentares consequentes de determinada ementa é o mesmo, em determinado local, seja a conta feita por quem for, como da mesma ordem de grandeza deverá ser o número de calorias atribuíveis a determinada função, sob determinadas circunstâncias, e o que o chefe de determinada família tem de procurar garantir para se sustentar a si e aos seus dentro de um mínimo de equilíbrio vital.
Acrescentaria, em defesa do método seguido, que qualquer processo de análise quantitativa, com base directa em médias estatísticas, pressupõe, não só um longo período de informação, mas, sobretudo, uma arrumação cuidadosa das contribuições procedentes da investigação nos mais diversos campos; e desde logo a primeira condição teria fatalmente de se apresentar muito pouco respeitada entre nós, dada a carência de elementos capazes de nos dizer quanto, em média, cada português consome de géneros alimentares, por exemplo.
A estatística é de facto, muito mais do que uma ciência uma resultante ou um somatório de métodos aplicáveis ao estudo numérico de conjuntos de factos numerosos ou de fenómenos de massa, constituídos por um certo número de unidades, de tal forma definidas que o agrupamento em causa se possa limitar nitidamente; para além dos fenómenos típicos ou puros, característicos das ciências exactas, estende muitas vezes, com satisfatório êxito, a sua acção aos fenómenos atípicos, constituídos por factos naturais e concretos, que sempre se acompanham, de modo mais ou menos sensível, das mais variadas circunstâncias, as quais quase sempre dificultam o necessário agrupamento sob um critério de homogeneidade absoluta. Tais os fenómenos de carácter demográfico, económico ou social, que interessam particularmente ao âmbito da economia aplicada e ao governo dos povos.
Erro grave seria, portanto, pretender-se que com a denominação da estatística se compreende o resultado simplista de qualquer enumeração; teríamos então que o estatístico, como observa Schott, não seria mais do que um pobre louco que enumera sem distinção tudo quanto cai em suas mãos; e a estatística, por seu lado, um método absurdo que tratasse de reduzir a um montão de números toda a portentosa beleza do Universo.
Mas isto nunca foi estatística, podendo ser, quando muito, aquilo que, na falta de preparo, muitos julguem que a estatística é. A estatística é, sobretudo, um meio de informação relativo a estudos ou a processos, em que se consideram, como homogéneos certos casos, abstraindo-os, dos seus elementos diferenciais; só um ignorante, de facto, poderia pretender a extensão descuidada de formulações matemáticas, ou de interpretações quantitativas, no campo social aos fenómenos em que mais abundem e mais se diversifiquem aspectos qualitativos ou manifestações da vontade individual: só pela obediência à lei dos grandes números -que pressupõe uma recolha exaustiva de elementos - poderíamos, em certos casos, obter satisfatórios resultados.
Os consumos alimentares, por exemplo, constituem uma forma típica de enumeração, que se reduz, no que respeita ao cálculo, ao campo extremamente simples da aritmética; a dificuldade existe na quantidade e na selecção da recolha dos elementos necessários, e então poderemos dizer que, pelo que respeita ao problema que pretendo analisar, os dados de partida, embora de classificação qualitativa simples, impõem uma extensão tal de recolha e uma tal segurança de informação (...)