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764 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 205

cujo primeiro cuidado consiste em levantar escolas - que servirão tanto para o ensino da língua francesa como para celebrar actos de culto e ministrar a catequese. As igrejas serão edificadas mais tarde.
Sr. Presidente: nos Estados Unidos existem emigrados de sangue português desde os meados do século XVII, tendo-se fixado muitos deles na Nova Inglaterra e na Califórnia há mais de cem anos: o seu montante não tem cessado de aumentar, ainda que nas duas últimas décadas em menor escala, devido às restrições da lei de emigração americana.
Bastantes dos nossos antigos emigrantes, quando deixavam a Pátria, mal sabiam ler e escrever o seu nome, partindo pobres de bens materiais, de instrução literária e profissional e de protecção religiosa; iam dispostos a trabalhar afanosamente e a fazer todos os sacrifícios para brevemente regressarem à terra natal com meios de fortuna. Porque a sorte não favorecia todos, a permanência forçada levou-os, anos mais tarde, a reunir-se em dúzias de valorosas instituições -associações de socorros mútuos e de recreio e clubes desportivos - para praticarem assistência, divertimentos, realizarem exibições teatrais e de grupos folclóricos portugueses e falarem a língua materna; fundaram jornais escritos em português - cerca de uma dezena e meia - e alugam períodos de tempo em emissoras de rádio e de televisão locais para irradiar programas em língua nacional.
Não obstante o meio adverso, a resistência e vitalidade da nossa língua são tão vigorosas que, se nem sempre impõe os seus vocábulos - como acontece na Nova Inglaterra, por exemplo, onde, em vez de fishermem e harpooner, se generalizaram entre os homens do mar da região as palavras pesca-man e arpoador -, amiudadas vezes modifica os termos ingleses para os adaptar à fonética portuguesa. Muitos antropónimos nossos se contam na América do Norte, e entre os nomes de povoações lembra-se o de Lisboa, que apelida cerca de dezena e meia de qualificados centros urbanos da América do Norte.
Quanto às nossas características étnicas, mostram-se tão fortes e activas que, frequentemente, do casamento de portugueses com indivíduos pertencentes a outra colónia estrangeira resulta a integração destes nos usos e costumes lusitanos.
Todavia, uma das maiores preocupações dos Luso-Americanos foi sempre a construção de igrejas onde pudessem rezar em português, render culto aos santos das suas aldeias, regra geral ausentes dos altares norte-americanos, e celebrar as suas festas religiosas tradicionais.
Com a chegada a Nova Bedford, em 1869, do primeiro sacerdote português - o padre João Inácio de Azevedo, natural da ilha do Pico - iniciou-se uma era nova para a nossa colónia na América do Norte, nomeadamente após a edificação, poucos anos depois, naquela cidade, da Igreja de 8. João Baptista, a número um da série de templos portugueses, alguns majestosos, que seguidamente se levantariam - em 1944 somavam 32; em 1905 29 igrejas tinham pároco português, das quais 2 apenas na Califórnia.
Segundo a legislação americana, as igrejas católicas dos Estados Unidos são pertença dos bispados, que só as deixam erigir ou cedem a título precário aos sacerdotes de origem estrangeira não nascidos ali; desta circunstancia têm derivado grandes inconvenientes para a comunidade portuguesa, que já perdeu algumas paróquias com templos edificados pelos Luso-Americanos: Espirito Santo (Attleboro), S. Domingos (Swansea Massachusetts) e S. João Baptista (East Boston), em proveito dos padres irlandeses.
Junto das igrejas paroquiais, ou anexos a estas, contam-se dezenas de amplos e modernos colégios - por exemplo os de Nossa Senhora do Carmo (Nova Bedford) e Santa Isabel (Bristol)-, que abrigam perto de meio milhar de alunos cada um; nestas escolas - erigidas por iniciativa dos nossos sacerdotes e sustentadas, pode dizer-se, exclusivamente à custa da generosidade dos Luso-Americanos - padres e irmãos de várias congregações missionárias ministram, na nossa língua e em inglês (como determina a lei norte-americana), ensino religioso e literário a muitos milhares de crianças de origem portuguesa.
Assim como as 29 paróquias presentes e os 62 padres nacionais estão muito longe de satisfazerem as necessidades do culto do meio milhão de luso-americanos, igualmente os nossos colégios da América do Norte não podem dar instrução às várias dezenas de milhares de filhos dos portugueses da Nova Inglaterra e da Califórnia.
Não será ousado admitir que para as exigências espirituais e intelectuais dos Luso-Americanos serão precisos acima de 150 paróquias e mais do dobro do sacerdotes, cerca de 400 colégios de ensino primário e os religiosos bastantes para neles preleccionarem, algumas escolas de ensino secundário ou médio e um seminário, situados onde se encontrem mais concentrados os agregados da população luso-americana.
Empresa tamanha é, salvo melhor opinião, a única capaz de salvar para Portugal os 500 000 luso-americanos. Ao enunciá-la, tenho na mente as expressões autorizadas do Sr. Cardeal Patriarca de Lisboa, escritas em 1945 na
carta-prefácio do interessante trabalho do antigo e ilustre membro desta Assembleia major Luís da Câmara Pina, apresentado ao II Congresso da União Nacional, defendendo a criação de um centro de cultura e língua portuguesa na América do Norte:

Os melhores centros serão sempre as igrejas portuguesas da América, como os melhores agentes serão os sacerdotes saídos do nosso povo. Cremos até que tudo o que se fizer terá do ser ao lado daquelas e com o apoio destes. Mas a sua acção e influência precisam de ser ampliadas e continuadas com instituições de cultura e língua, sem as quais até nas igrejas se deixará de rezar em português...
Sobretudo se for rareando cada vez mais a emigração portuguesa.

A obra sugerida alicerça-se nas magnificas doutrinas da Ersul Família, exemplificadas fecundamente na experiência italiana e nos belos conceitos do Sr. Cardeal Patriarca, e está em perfeito acordo com os interesses espirituais, políticos e económicos de Portugal, além de que, para pô-la em marcha, não se exigem incomportáveis encargos financeiros ao Tesouro nacional.
Trata-se de um programa de resolução a longo prazo, como é óbvio; o fundamental é planificá-lo com perfeito conhecimento do meio americano, estabelecer prioridades de acção e iniciá-lo sem demora; de contrário, será tarde de mais, tantas e tão grandes solicitações assimiladoras enleiam os nossos jovens e adolescentes da América do Norte.
E depois não temamos a naturalização norte-americana nem que perdure o complexo de interioridade étnica dos filhos dos nossos emigrantes - obsessão de muitos deles, felizmente em via de esmorecimento; graças a Deus que as novas gerações já se orgulham de descender de portugueses, desde que Salazar dirige os nossos destinos, começando a perder a «vergonha» - sentimento derrotista criado e desenvolvido por suspeitas propagandas estrangeiras, empenhadas em amesquinhar a actividade civilizadora de Portugal, minimizando a sua cultura e denegrindo os brilhantes leitos da nossa história, juízo que, lamentavelmente, a situação política anterior ao 28 de Maio consentia e ajudava a corroborar.