766 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 205
Com a vinda de novas vagas de emigrantes portugueses, além do se revigorar a língua nacional entre os Luso-Americanos, outras vantagens resultarão para Portugal: o envio para aqui de maior número de divisas e possibilidades de se aumentarem as nossas relações económicas com os Estados Unidos, infelizmente não tão desenvolvidas como era de desejar.
Sr. Presidente: apesar de não ser esta a mais propicia ocasião de abordar o importante assunto das nossas trocas comerciais com a América do Norte, não resisto a declarar: estou certo de que bastariam os 500 000 luso-descendentes neste pais para absorver a maior parte de alguns dos nossos produtos de exportação, metropolitanos e ultramarinos, tão grande é o poder de compra dos nossos patrícios do Novo Continente. Mas para isso são condições essenciais que os nossos exportadores negoceiem dentro dos princípios da técnica moderna e não desacreditem os géneros portugueses.
Se soubéssemos e quiséssemos comerciar bem, colocaríamos nos Estados Unidos, para serem consumidos pelos Luso-Americanos e também pelos demais habitantes desta nação, não só as nossas conservas de peixe e o café, como ainda o vinho do Porto! Mas porque não se cria um tipo de vinho do Porto agradável ao paladar norte-americano. Basta fabricar um vinho licoroso seco, pouco doce, e susceptível de ser usado com gelo ou em conktail... e depois fazer a respectiva propaganda com inteligência e habilidade.
Que heresia, replicar-me-ão, alterar o tipo tradicional do vinho do Porto. Respeitemos a tradição que não nos prejudique, mantenhamos o tipo de vinho para satisfazer o gosto dos Ingleses, que agora nos compram muito menos vinho do Porto do que eles e nós desejaríamos; e, ao lado do tipo tradicional, criemos uma classe de vinho para consumo dos Norte-Americanos. Se assim for, não produziremos vinho do Porto em cada ano senão por uns escassos meses, tantos milhões de norte-americanos o prefeririam!
Sr. Presidente: com as considerações que acabo de fazer pretendi chamar a atenção do Governo para a grave questão da assistência espiritual e literária aos Luso-Americanos. Poderá agora perguntar-se: a que organismo ou organismos estaduais portugueses - a que não poderá faltar o insubstituível conselho da Igreja - caberá a responsabilidade da orientação e do desenvolvimento do plano exposto?
Ao Instituto de Alta Cultura? Muito me apraz sublinhar o notabílissimo esforço realizado por este douto organismo; os elementos que passo a enunciar documentarão cabalmente o labor fecundo do Instituto de Alta Cultura.
Ao enaltecer a obra dos sacerdotes e religiosos portugueses na América do Norte e ao apontar a necessidade instante de termos ali mais paróquias e escolas, mais padres e professores do nosso sangue, em favor da expansão da língua e cultura nacionais, não devo esquecer o contributo material, embora modesto, que o douto Instituto de Alta Cultura vem dando a uma escola luso-americana de Nova Bedford e à Escola Camões de Hong-Kong, fundadas por sugestão do antigo e distinto cônsul Dr. Eduardo Brasão.
Merece francos louvores a acção levada a efeito por este departamento do Ministério da Educação Nacional no sentido da difusão do nosso idioma entre, os jovens luso-descendentes que habitam no Norte de África (Rebate e Casa Branca) e, bem assim, as tentativas da criação de escolas portuguesas - em Madrid, Narobi, Joanesburgo, etc.; a escola de Casa Branca tem professores diplomados, pagos pelo Instituto de Alta Cultura, instalação privativa, camioneta para o transporte das crianças (todas inscritas na Mocidade Portuguesa), cantina para
os alunos pobres, biblioteca e serviço de propaganda e também um curso nocturno para adultos.
Porém, pelas razões expostas, esta modalidade não é a mais aconselhável e profícua para os jovens luso-americanos.
Devo elucidar que nos Estados Unidos se ministram conhecimentos da nossa língua e literatura a estudantes do ensino superior - segundo Luís da Câmara Pina, em 1942 contavam-se 99 cursos de Português, professados em 55 Universidades e escolas superiores, espalhadas pela América; na Universidade da Pensilvânia estudava-se o nosso idioma em um curso inteiro e em outro os nossos cancioneiros.
Porém, estes ensinamentos, de feição especulativa, aproveitam em regra apenas a uns poucos estudantes estrangeiros e, portanto, com projecção limitada, como é natural, embora se operem em sectores culturalmente elevados; nos elementos estatísticos contidos na tese já referida, respeitantes a 1942, verifica-se que em pouco mais de uma dezena de escolas universitárias norte-americanas aparecem professores com nomes portugueses a ensinar a nossa língua. No estipêndio e orientação deste labor não intervém o Instituto de Alta Cultura.
Sr. Presidente: não há dúvida de que com a fundação da Junta da Educação Nacional (1929), ampliada e regulamentada (1931), tornada Instituto para a Alta Cultura (1931) o reorganizada em 1952, se criou uma das mais notáveis obras da Revolução Nacional, iniciando-se uma época que representa um verdadeiro renascimento cultural e científico da Nação.
Os dados informativos de que vou servir-me agora foram-me obsequiosamente dados pelo Instituto de Alta Cultura e serão transcritos quase na íntegra.
O Instituto, mediante convívio com os centros congéneres estrangeiros, por meio de auxílios aos investigadores, dentro e fora do País, e aos laboratórios, melhorando as instalações e material cientifico e bibliográfico, promovendo a elaboração de trabalhos e respectiva publicação - com a organização de um serviço de documentação cientifica -, pôde preparar cientistas em laboratórios e centros de estudo nacionais e estrangeiros e ajudar a desenvolver o alto prestigio intelectual do que Portugal desfruta em nossos dias.
Para se apreciar melhor o esforço do Instituto de Alta Cultura, ocupar-me-ei primeiramente do período que vai de 1929 a 1955 e a seguir apenas do labor e 1956, tão importante ele é.
Até 1955 estudaram no estrangeiro 667 portugueses, tendo sido dadas 1113 bolsas de estudo, com as quais se despenderam cerca de 19 629 contos.
As 1440 bolsas de estudo concedidas até 1955 a 430 investigadores -
recém-formados no Pais, com vocação especial para os trabalhos científicos - importaram em perto de 10 226 contos.
Esta actividade merece os maiores elogios; sem ela não se haveria conseguido sistematizar e ordenar os trabalhos e, consequentemente, os resultados a obter não teriam sido tão brilhantes. Partindo-se do zero, subsidiaram-se em primeiro lugar investigadores isolados; seguidamente, quando o seu número cresceu, reuniram-se por especialidades, sob a orientação de investigador idóneo, e, finalmente, ao atingir-se certo desenvolvimento, criaram-se os centros de estudo.
Depois de 1941, aproveitando os bolseiros regressados do estrangeiro,
aumentou-se bastante o número dos bolseiros no Pais.
A par das bolsas mencionadas, outras foram concedidas a estudiosos e professores estrangeiros interessados nos problemas ou na investigação portugueses, patrocinando-se também a realização em Portugal de