25 DE ABRIL DE 1957 765
Não é de mais repetir que o incontestável prestigio de que Portugal goza presentemente nos Estados Unidos se ampliou com as visitas do Sr. Cardeal Patriarca, dos Ministros Paulo Cunha e Sarmento Rodrigues, dos nossos intelectuais o das missões militares e com a existência de cônsules portugueses de carreira ou de outros com elevada categoria; a existência de muitos indivíduos do nosso sangue - oficiais do exército e da armada norte-americanos, médicos, advogados, professores, deputados, senadores, membros de conselhos administrativos, funcionários públicos, prósperos industriais, comerciantes e agricultores -, associada ao alto nível económico-social da quase totalidade dos Luso-Americanos e a tantas outras provas flagrantes das nossas capacidades, concorre para aumentar a consideração pelos Portugueses e seus filhos, os quais podem equiparar-se, sem favor, aos componentes de outras colónias estrangeiras tidos por tão progressivos como os verdadeiros Norte-Americanos.
Sr. Presidente: as dioceses nacionais não dispõem de sacerdotes para se deslocarem à América do Norte, e, se os tivessem, eles não poderiam trabalhar ali sem o consentimento do bispo do destino; e, no caso afirmativo, não possuiriam certos conhecimentos indispensáveis ao exercício do seu múnus com o êxito desejado, por não haver entre nós casas de formação especializadas; os Italianos fundaram institutos religiosos adequados na pátria-mãe para preparação dos seus padres emigrantes e instituíram um seminário privativo na América do Norte - vasto e complexo campo de evangelização, muito mais difícil do que o da missionação de povos culturalmente atrasados.
Perante os obstáculos referidos, haveremos de recorrer a preparação de sacerdotes e religiosos filhos de luso-americanos nascidos nos Estados Unidos, para que, desta surte, deixem de existir os argumentos invocados pelos bispos norte-americanos para obstarem à presença de padres estrangeiros, à instituição de novas paróquias e à construção de mais igrejas e conventos nacionais. Eis porque o primeiro passo a dar em frente para a consecução dos objectivos em vista consiste em fundar imediatamente um seminário português na América do Norte, decerto a princípio reduzido ao curso preparatório ; os últimos anos do curso teológico deverão ser tirados no Seminário dos Olivais, em Lisboa, por bem compreensíveis razoes políticas: a permanência dos rapazes luso-americanos na capital do mundo português contribuiria de maneira decisiva para robustecer e cimentar a sua formação patriótica.
Estou absolutamente convencido do que a colónia lusitana da América do Norte concorrerá de muito boa vontade para a construção e manutenção do seminário luso-americano e de outras escolas, porque os seus membros possuem meios financeiros e orgulham-se de ser filhos de Portugal, esperando apenas pela palavra de ordem de quem coordene e oriente as iniciativas e mereça a sua confiança. Parece-me, contudo, muito vantajoso que o terreno para a instalação do seminário seja adquirido pelo Estado Português.
As despesas com a vinda e estada em Lisboa dos estudantes luso-americanos, por se tratar de serviço a bem da Nação, hão-de também ser suportadas pelo nosso erário, sob a modalidade de bolsas de estudo dentro do Pais por exemplo - cujo montante pecuniário anual não julgo muito elevado. Simultaneamente, terão de vir u metrópole, nas mesmas condições, os jovens luso-americanos desejosos de seguir a vida religiosa, para concluírem a sua formação e para que, no seu regresso à América do Norte, possam fundar instituições espirituais e estejam bem habilitados para o desempenho das funções docentes nos colégios portugueses de instrução primária, a abrir posterior e sucessivamente; o ambiente
norte-americano não recomenda o emprego de professores leigos no ensino dos luso-descendentes, porque, além de exigirem grandes vencimentos, nunca teriam o indispensável ardor espiritual que os levasse a dar-se totalmente a este género de apostolado. Uma escola de ensino secundário em cada grande núcleo de
luso-americanos completará o sistema proposto, o qual, a trabalhar-se eficientemente desde já, poderá produzir os primeiros frutos dentro duma dezena de anos. E enquanto não se levanta o seminário mandem-se vir a Lisboa alguns alunos luso-americanos das nossas escolas da América do Norte julgados pelos padres nacionais com vocação pura o sacerdócio.
A proceder-se assim, não decorrerão muitos anos sem que altas figuras da igreja católica dos Estados Unidos sejam luso-americanos.
Sr. Presidente: a importância do problema que acabo de equacionar, por tão evidente, não careceria de mais comentários; todavia, não deixarei de dizer que mais do que nunca, uma forte e prestigiosa posição política da colónia
luso-americana nos Estudos Unidos interessa extraordinariamente a Portugal. Porque a nossa política internacional se apoia sobretudo em relações de franca amizade, não é com a Espanha, Inglaterra e o Brasil, mas também com a América do Norte, convém alargar e engrandecer tanto quanto possível o bom entendimento que ura mantemos com esta grande e progressiva, nação - o melhor agente destes sentimentos não encontraremos do que a melhoria espiritual, literária e
económico-social dos nossos irmãos do sangue que ali vivem.
Conquanto já aludisse à transcendência política da questão em estudo, falando da expansão da língua portuguesa e da situação social dos Luso-Americanos, a incrementar na medida em que se favorecer nos Estados Unidos o desenvolvimento da cultura nacional, julgo oportuno fazer ainda mais alguns breves apontamentos. Quanto mais se valori/arcm os filhos dos Portugueses, melhores posições conquistarão na vida pública e privada da América do Norte; quanto maior número de luso-americanos houver nos Parlamentos estadual e federal e em outros lugares de relevo, de mais amplas regalias desfrutarão os componentes da nossa colónia, quer no que respeita aos interesses particulares como aos gerais. De certo deputado de um estudo de Nova Inglaterra sei eu que não se coíbe de confessar publicamente dever o seu lugar no Parlamento aos votos dos Luso-Americanos; como é natural, em cidade ou vila onde os membros dos conselhos municipais, polícias e outros funcionários sejam da nossa origem, maiores facilidades serão dadas aos Portugueses nas suas relações com os serviços do Estado, e até podem aplicar-se as leis e os regulamentos com menor dureza, se não com grande benevolência. Quando os Luso-Americanos tiverem situações de relevo na política, nos clubes e associações e nos jornais, já quaisquer campanhas difamatórias da nossa acção colonizadora deixarão de vingar, e mais facilmente só conquistará um dos maiores anseios dos Luso-Americanos: o alargamento do contingente anual da nossa emigração para a América do Norte, agora bem pequeno e sem relação proporcional com o valor numérico e económico-social da nossa colónia: em 1955 desembarcaram nos Estados Unidos 1328 emigrantes portugueses, quando, consoante os informes do major Luís da Camará Pina, de 1021 a 1924 a nossa quota anual, só para a Califórnia, subia a 2465.
Se precisamos de intensificar a emigração portuguesa paru as nossas províncias ultramarinas - que em 1955 atingiu 27 340 pessoas -, isso não obsta a que, por enquanto, muitos filhos de Portugal procurem outras regiões, como o Brasil e a Venezuela, os dois países para onde os nossos compatriotas actualmente mais emigram: em 1955 partiram para ali, respectivamente, à volta de 18 500 e 5700.