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26 DE NOVEMBRO DE 1980 157

cão entre objectivos a alcançar e meios necessários a essa obtenção. Porventura o paradoxo existirá se for interpretado à luz dos acontecimentos do 25 de Novembro. Talvez não exista face a acontecimentos posteriores.
Há em tudo isso uma lógica necessariamente compreensível, ou, em alternativa, viveríamos num mundo de irresponsabilidade. Não mudou certamente o Dr. Álvaro Cunhal. Não mudaram certamente os Drs. Sá Carneiro, Mário Soares e Fretas do Amaral.
O exercício da política tem ainda em Portugal, e para alguns, um conteúdo de volubilidade e de revolução.
Em 1980 é chegado o momento de dizer: a Revolução terminou, a democracia plena vem aí.

Aplausos do PSD, do CDS e do PPM.

O Sr. Presidente:- Para uma declaração política, tem a palavra o Sr. Deputado Mário Tomé.

Risos do PSD e do CDS.

O Sr. Vital Moreira (PCP): - A direita só conhece a democracia de S. Nicolau!

O Sr. Mário Tomé (UDP): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Ao subir a esta tribuna para evocar e comentar os acontecimentos de há cinco anos...

O Sr. Vital Moreira (PCP): - Proponho o Narana Coissoró para comissário de S. Nicolau...

O Sr. Narana Coissoró (CDS): - Era nessa altura que você ia falar com o Américo Tomás...

O Orador: - Esteja calado! Não seja imbecil!

Risos.

Ao subir a esta tribuna para evocar e comentar os acontecimentos de há cinco anos, começo por me curvar perante a memória do meu querido e saudoso companheiro Albertino Bagagem, assassinado no quartel em que prestava serviço militar obrigatório pelas tropas sublevadas do Regimento de Comandos, ao serviço das forças reaccionárias e contra o 25 de Abril.
Lembro ainda o nome de Joaquim Leal, autêntico revolucionário, com toda uma vida dedicada a servir o povo e às suas lutas, e que nessa tarde de 25 de Novembro de 1975 seria, fria e criminosamente, abatido pelas mesmas forças, quando regressava a casa ao fim de uma jornada de trabalho.
Srs. Deputados: A história do 25 de Novembro tem vindo a ser escrito desmascarando as grosseiras falsificações e mistificações que as forças golpistas tentaram dar desse acontecimento. Pretendeu-se apresentar o golpe, chefiado pelo tenente-coronel Ramalho Eanes, como a contenção de um «golpe» de esquerda, quando o que se conhece hoje confirma que eram as forcas reaccionárias que desde há muito, dentro e fora dos quartéis e com frontal atropelo da legislação militar, vinham a preparar-se para desferir um golpe de morte contra o 25 de Abril, que nunca toleraram.
Aquela versão do golpe foi o pretexto para neutralizar a iniciativa do povo, que com a sua luta procurava um novo rumo para o nosso país, um caminho
de liberdade, de bem-estar e independência, que o fascismo sempre negara e que hoje os vencedores do 25 de Novembro continuam a recusar.
Aquela versão foi o pretexto para afastar das forças armadas todos aqueles que, identificados com o 25 de Abril, acompanharam o povo na sua luta e se recusavam a reprimir os trabalhadores. Passados cinco anos, ainda ninguém foi capaz de demonstrar qualquer plano ou concertação entre os oficiais progressistas para o desencadeamento de qualquer golpe.
Os golpistas foram as forças fascistas e reaccionárias agrupadas no ELP e no MDLP, a hierarquia conservadora das forças armadas; os golpistas foram os agentes do imperialismo e da CIA, a que se juntaram aqueles que, dizendo-se defensores do povo, no fundo temem a sua torça e as suas lutas, aqueles para quem lutar por aquilo que é seu e que lhes es á a ser roubado não passa de «anarco-populismo». Mas, passados cinco anos, se alguém ainda tem dúvidas sobre a verdadeira identidade e intenções dos golpistas, por que não fazer um julgamento público sério e isento onde todos tenham as mesmas possibilidades de defesa? Por que continuar a esconder ao povo a verdade dos factos, ao mesmo tempo que se continuam a expulsar das forças armadas aqueles que apenas cometeram o crime de participar na libertação de Portugal das garras do fascismo?
Srs. Deputados: Também se procurou mascarar os verdadeiros objectivos do golpe de há cinco anos com a versão de que «o 25 de Novembro veio repor o espírito do 25 de Abril». Aqui a falsificação ainda é mais monstruosa.
Depois do 25 de Abril o povo viu aumentado o seu poder de compra, os privilégios dos grandes monopolistas e agrários foram seriamente abalados, a Reforma Agrária a favor de quem trabalha a terra tornou-se realidade, a liberdade floresceu nas fábricas, nos campos, nas escolas, nos bairros, nas ruas.
Depois do 25 de Novembro tudo se modificou: as empresas intervencionadas, abandonadas ou sabotadas pelo patronato, foram devolvidas depois de recuperadas pêlos trabalhadores, as terras são entregues de novo aos agrários parasitas, que no tempo do fascismo as mantinham completamente incultas.
Os interesses dos trabalhadores e do povo são subordinados aos lucros das multinacionais e dos monopólios privados que se reconstituem, as liberdades estão fortemente limitadas, a não ser para aqueles que sempre foram livres de explorar o povo; os antifascistas conhecem de novo as grades da prisão e o nosso país já não passa de uma coutada dos imperialistas americanos e europeus.
Foi para isto, Srs. Deputados, que foi feito o 25 de Novembro.
A UDP é a única força que, desde então, o tem denunciado como manobra das forças direitistas, para liquidar o 25 de Abril. Não fomos daqueles que vacilámos. Chamámos o povo a levantar-se contra os golpistas e foi a reacção popular que impediu que mais graves fossem as consequências da aventura reaccionária contra os trabalhadores e a democracia.
Hoje continuamos - firmes na nossa coerência - a denunciar e combater esta política e o seu principal protagonista, o general Ramalho Eanes, pois esta política só pode trazer mais fome e miséria ao povo