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3964 I SÉRIE - NÚMERO 94

Daí que o cidadão comum tenda a ver neste vosso segundo fôlego o simples estertor do primeiro, quando não a tentativa de reanimação de um nado-morto por respiração boca a boca. Mas ides governar e é bem feito. Não para o povo que de boa fé vos elegeu, iludido pelas vossas promessas. Mas para vós mesmos, que não tivestes mão no prometer.
Após as naturais dificuldades do processo revolucionário, recebeu a AD, de quem sois pontas-de-lança, uma democracia instituída e um país viabilizado. Um relativo equilíbrio e uma confortável pausa financeira, uma inflação descendente, um desemprego sob controle, uma balança de relações externas com tendência para o equilíbrio, importações em compressão, exportações em expansão, remessas de emigrantes e fluxos turísticos nunca dantes atingidos, uma relativa trégua social.

Vozes do PS e da UEDS: - Muito bem!

Protestos do CDS.

O Orador: - Isto depois de galgadas as mais graves consequências da descolonização e de superados os abanões da mutação do regime.
Foi este o país que despertou na AD a gula do poder. Para o conseguir, e depois reter, à AD desdobrou-se em promessas sem conta nem medida. Prometeu o que não podia cumprir, o que de antemão sabia não poder cumprir.
Prometeu o aumento do produto, do investimento e do emprego, e simultaneamente a desaceleração no crescimento dos preços e do défice externo; o aumento sustentado das exportações e a diminuição das importações; o reforço das remessas de emigrantes e a expansão do turismo; a contenção, nomeadamente através de subsídios, da alta dos preços, e a transparência na sua formação; o reforço do poder de compra da população e a melhoria em geral da qualidade de vida; o aumento da produtividade e a modernização da agricultura; uma comunicação social pluralista, independente e livre; um ensino sério e independente; habitação condigna para todos; mais educação, mais saúde, uma vida melhor.
Isto sem falar nas promessas vagas? tão da sua predilecção, abrangentes até às portas do infinito, do tipo «promover a justiça social», «delinear uma política' global da protecção à família», «libertar, a sociedade civil», «dinamizar a solidariedade nacional» e outras que tais.
Pouparíamos, palavras enumerando o que, de bom a AD não prometeu.
O resultado viu-se: saiu tudo precisamente ao contrário. De colapso em colapso, a AD, ou os factos por ela, foram dando o dito por não dito. A inflação, o custo de vida, o desemprego, o défice das balanças; as exportações, tudo o que, enfim, deveria ter descido subiu. O investimento, o desenvolvimento, o poder de compra das populações, as remessas de emigrantes e os fluxos turísticos, e o mais que devia ter subido - incluindo a AD e a sua retumbância, o Governo e o seu redentorismo - confrangedoramente desceram! Gastaram-se ao atrito da crise, da evidência e da razão!
De sorte que a mesma AD - que há nove meses se dizia retumbantemente coesa, unida e imune à tentativa, de dentro ou de fora, de «promover a sua divisão ou dissolução», desabou fragorosamente. O Primeiro-Ministro, que era excelente, passou a não prestar. Os seus ministros e secretários, antes tão capazes, passaram a ser acusados de incompetentes.
A AD esboroou-se, o Governo caiu. A gozar o sol, na praia ou no campo, o País não sabia se havia de rir se de chorar, tão patético era o logro em que tinha caído quem tinha.
De repente os contendores da AD, para quem o gosto do poder nunca foi um segredo de Estado, bateram na testa: não é que se tinham esquecido de segurar o poder?
Juntaram amorosamente os cacos espalhados em derredor, uniram-lhes os bordos para parecerem inteiros e o Primeiro-Ministro voltou (a ser magnífico e único; os Ministros de novo capacíssimos(quem havia dito o contrário?!); o programa uma vez mais exaltante; a ideologia mais dó que nunca um dogma.
Punidas uma que outra infidelidade mais gritante, respeitado, um que outro estômago mais sensível, satisfeita uma que outra ambição mais ávida, incluído no novo elenco um que outro adversário mais incómodo, o Governo renasceu das cinzas, tal como convinha, sendo o mesmo e parecendo outro!
Reconhecei que não houve crise nenhuma e que vos estivestes divertindo a expensas nossas. Ou então que houve mesmo uma crise grave, uma Babel entre vós, e nos estais enganando quando pretendeis navega superado.
Engano ou desfrute que de todo o modo custaram às instituições pesado desgaste, à economia prejuízos sem conta, aos cidadãos a decepção que sempre se apossa daqueles a quem não foi dado, conhecer a razão das coisas.

Vozes do PS, da ASDI e da UEDS: - Muito bem!

O Orador: - Éis-vos de novo perante nós, mascarados, de outros,, sendo embora os mesmos. Uma ou outra cara nova - nem sempre no lugar certo -, uma orgânica concentracionista com recurso a superministros que não foram capazes de ser razoáveis ministros, com separação de departamentos afins e aglutinação de departamentos antípodas, o mesmo vago e ambicioso programa - como se não tivésseis ferido de morte as esperanças depositadas no antecedente- a mesma lógica de interesses e o pano de fundo das mesmas preocupações dominantes.
De novo, apenas a austeridade, que o FMI pôs como condição de vos, dar a mão, com todo o seu peso apontado para o estômago dos trabalhadores e humildes.
Leis do trabalho e trabalhadores únicos culpados da crise, (além do dólar e do. petróleo, naturalmente), eis o diagnóstico subjacente à vossa terapêutica, política.
Daí que o povo, já por de mais causticado, vos receie e veja em vós se me é permitida uma caricatura brejeira - um cinto de muitos furos que ele terá, penosamente, de apertar.
E tudo isso porque convictos de que a inteligência é o dom mais bem distribuído, e por isso satisfeitos com a que tendes; e não menos de que é preciso reconduzir tudo à expressão real do nosso ideário político conservadora passadófilo, endeusais a inicia-