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2104 I SÉRIE - NÚMERO 53

eleitorado de que as culpas eram dos socialistas (uns incompetentes!) da Constituição (um entrave!) e do próprio socialismo, que não tem culpa de
que a AD adore o capital!
Em contraponto, revelaram-se bons vendedores de ilusões e conseguiram autodifundir uma falsa imagem de competência e de eficácia, de par com uma certa nostalgia das soluções capitalistas. Se libertássemos a iniciativa privada, os agentes económicos se encarregariam de criar emprego e riqueza, com a fatalidade de uma lei natural.
Quando a AD chegou ao Poder, protegida por uma cómoda maioria parlamentar, encontrou uma relativa folga financeira, uma balança de transacções correntes à beira do equilíbrio, uma inflação decrescente, um desemprego de dimensão endémica, o turismo e as remessas dos emigrantes em fase de euforia.
O seu primeiro programa de Governo pôde, assim, ser largo no prometer.
Apesar de algumas primeiras frustrações, o VI Governo encontrou nos cofres do Estado, e na situação em geral, com que fazer demagogia. Aproximava-se o termo da legislatura - que já apanhou em saldo - havia que segurar os preços e distribuir prebendas. Segurou e distribuiu.
Daí o reforço da sua maioria no Parlamento. Mas daí também os subsequentes soltar dos preços e apertar dos cintos. Sempre de mal a pior, o VII Governo acabou por ter de recorrer ao segundo fôlego que é este VIII e, de então para cá, foi a desgraça que se viu.
Ao findar o exercício de 1981, estávamos bastante mais longe do padrão queiroziano de "um tecto contra a chuva e um caldo contra a fome", e caminhávamos para esse seu outro sarcasmo de sermos cada vez mais um "Estado a que pertencia organizar a esmola".
O desemprego tornava-se epidémico. A taxa de inflação rompia os diques convencionais dos Srs. Ministros das Finanças e galopava como um corcel. O custo de vida estava pelas horas da morte. A saúde custava os olhos da cara. O défice. da balança galgava os dois biliões de dólares. A cobertura das importações pelas exportações encolhia 10%. O desenvolvimento, programado para cerca de 5%, quedava-se por uma taxa de 1,6% baça e tristonha.
Os programas dos governos da AD revelavam-se uma monumental mentira. Sem autoridade, sem ideias, sem elan, o segundo Governo Balsemão revelava-se, salvo seja, um Bonzo!
Sem surpresa. Quem assistiu ao esbarrondar do primeiro; e quem, ao ler o programa do segundo, deparou com as quatro prioridades erectas - a habitação, a produção agrícola e a regionalização - logo se deu conta de que estávamos a ser governados por homens que, da crise real do País, tinham a notícia difusa, mas não a noção exacta.

Vozes do PS: - Muito bem!

O Orador: - Cedo se empenhou o Governo em dar o dito por não dito. A habitação, continua esquecida; a exportação, continua minguada; a produção agrícola continua rotineira; a regionalização continua no papel.

Vozes do PS: - Muito bem!

O Orador: - Em vez disso, o Governo restringiu o crédito com que se fazem as casas e se arroteiam, se equipam e se adubam os campos, não reforçou os estímulos à exportação, e não se mostra apressado em instituir regiões.
Esqueceu-se, aliás, de explicar porque é que, sendo notória a nossa falta de meios, optou por atacar essa falta seleccionando algumas prioridades onde esses meios se gastam mais do que se geram.
Momentos houve - como os relativos à sua política salarial, de crédito e de saúde - em que o Governo pareceu menos empenhado em defender a sobrevivência do que em cavar a sepultura.
Quando tal acontece, as oposições podem entrar em greve. O Governo é opositor de si mesmo!

O Sr. Manuel Alegre (PS): - Muito bem!

O Orador: - O PS não tem a veleidade de dar conselhos ao Governo. Se tivesse, o conselho que lhe dava era o de largar o poder quanto antes, a bem da República e de si mesmo.

O Sr. Manuel Alegre (PS): - Muito bem!

O Orador:- Em épocas de crise, o poder só costuma seduzir quem o tem. Uma insânia muito própria de quem manda torna sedutor o abismo.
De um ponto de vista estritamente egoísta, o meu partido nada teria a opor a que este Governo corresse para se autoprecipitar da Rocha Tarpeia.
Mas sobrepõe-se o interesse nacional. Quanto mais durar o actual Governo, mais ingovernável será o amanhã da República.

Vozes do PS: - Muito bem!

O Orador: - Daí que o meu partido se tenha encontrado perante o dever patriótico de provocar um debate parlamentar que permita um juízo global sobre a AD e a sua política, este Governo e a sua gestão.
Se o saldo for o que se espera, e anda na boca de toda a gente, é mais do que certo que o meu camarada Mário Soares, ao encerrar os debates, anunciará a apresentação a esta Assembleia, pelo Grupo Parlamentar do meu partido, de uma moção de censura.

Aplausos do PS e da UEDS.

Moção que, muito provavelmente, a maioria parlamentar não votará e que, em qualquer caso, sendo a primeira, nunca acarretaria a queda do actual Governo. Mas que nem por isso deixará de se revestir de um profundo significado político, susceptível de tradução no seguinte: na notificação ao País, por parte do meu partido, de que, institucionalmente, este Governo lhe merece censura; num acto que, quando repetidamente votado, tem o efeito constitucional de acarretar a demissão do Governo; num acto que, quando repetido, e ainda que não votado, tem o significado político de que o Governo é considerado indesejável por aqueles que o tiverem votado; num acto que, quando não votado, corresponsabiliza formalmente pelos desacertos do Governo aqueles que lhe recusarem o seu voto.