I SÉRIE — NÚMERO 27
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drasticamente levantadas, mas antes devem ser levantadas de forma progressiva e planeada e, evidentemente,
articulada com o que virá a ser o plano de vacinação.
Não podemos deixar de sublinhar, uma vez mais, a importância da preparação, decisão e execução das
medidas ser feita de uma forma responsável e com o absoluto respeito pelo princípio da proporcionalidade e
necessidade, com um equilíbrio entre os sacrifícios pedidos e as vantagens obtidas, sem esquecer a
necessidade de comunicar estas medidas de forma clara e coerente.
Sendo certo que esta crise não é apenas sanitária, mas é também económica, social e ambiental, é
fundamental que as medidas adotadas sejam capazes de dar respostas globais e de prestar um auxílio eficaz a
todos os setores da sociedade, ou correremos o risco de sair do período pandémico em completa catástrofe
social e económica ou também pautado pela incoerência.
O que não pode acontecer é exigirmos medidas e confinamento aos portugueses e termos em contraciclo
ações contraditórias ao que é pedido.
Muito se tem falado também sobre o risco de esta crise sanitária enfraquecer a nossa democracia. Mas o
estado de direito democrático não se garante unicamente em comícios, congressos ou afins; o estado de direito
democrático garante-se neste Hemiciclo, garante-se com a capacidade de esta Assembleia assumir um papel
não meramente de observadora ou de fiscalizadora, mas legislando para dar respostas de que o País tanto
precisa e para que esta crise sanitária não belisque a nossa democracia.
A ponderação do levantamento do estado de emergência até poderia ser, a este tempo, uma medida popular,
mas não é uma medida eficaz para o que estamos a viver. Nesse sentido, teremos de continuar com o esforço
que tem sido feito por todos e por todas, em particular pelos que estão na linha da frente ao combate à COVID-
19 ou a assegurar serviços essenciais e a quem nunca seremos capazes de agradecer o suficiente, planeando,
legislando, garantindo respostas e investimentos nos diferentes setores, da saúde à educação, à habitação,
entre tantos outros que são absolutamente fundamentais para as respostas que esta crise nos exige.
O Sr. Presidente: — Tem agora a palavra, para uma intervenção, o Sr. Deputado João Almeida.
O Sr. João Pinho de Almeida (CDS-PP): — Sr. Presidente, Srs. Ministros, Srs. Secretários de Estado, Sr.as e Srs. Deputados: Para avaliarmos a atuação do Governo na aplicação do estado de emergência, temos de
analisar se essa atuação foi geradora de confiança, no sentido em que as medidas que tomou tenham sido
equilibradas, tenham sido bem comunicadas e tenham sido eficazes.
Do ponto de vista do equilíbrio, parece-nos, claramente, que isso não aconteceu. Houve uma restrição de
liberdades desequilibrada, que transpôs para o fim de semana, para a vida familiar e para o justo descanso a
que as pessoas têm direito uma carga negativa, que teve, no início, uma suposta justificação estatística e que,
prontamente, acabou por ser desmentida. Portanto, se a justificação estatística para esta opção era falsa, o
equilíbrio destas medidas restritivas ao fim de semana ficou também por justificar.
Esta restrição repercutiu-se nalguns setores com um peso muito superior ao de outros. Ninguém consegue
compreender porque é que às 13 horas se tinham de fechar os estabelecimentos de restauração quando,
obviamente, por duas horas, isso causava um prejuízo que era desproporcionado com aquilo que, do ponto de
vista da saúde pública, se conseguia proteger.
Depois, noutros setores, como diz o Relatório, como na educação, por exemplo, continua a não se conseguir
resolver problemas de diferenças absolutas entre o que umas e outras escolas fazem, mesmo no que respeita
apenas à oferta pública de ensino.
Por outro lado, temos a comunicação que, para além de ter sido feita a desoras, gerou dúvidas sobre o
conteúdo das medidas e sobre o seu alcance. A certa altura, perante as exceções, já ninguém percebia qual era
a regra. Querendo cumprir, os cidadãos estavam emaranhados numa complexidade entre a regra e as exceções
e não sabiam se as regras se aplicavam a si e, se se aplicassem, quando é que tinham de as cumprir.
Provavelmente, o que é mais evidente na ineficácia das medidas apresentadas é aquilo que constatou
qualquer pessoa que tenha saído à rua numa manhã de sábado dos fins de semana a que respeita este estado
de emergência. É óbvio que a restrição da possibilidade de famílias e de pessoas individualmente poderem
programar a sua vida ao longo do fim de semana e terem de a restringir às manhãs originou congestionamentos
que estão muito longe daquele que seria o objetivo com a entrada em vigor destas medidas.