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4762 DIÁRIO DAS SESSÕES N.° 236

o de mais difícil solução, atendendo aos enormes interesses financeiros que estão relacionados com a difusão clandestina da droga, dando lugar à constituição de verdadeiros gangs internacionais, com todas as implicações que usualmente estão ligadas a estas organizações criminosas.
Os lucros que se podem conseguir neste campo excedem, em muito, o que se almejaria alcançar em qualquer magnífico mas honesto negócio. Basta referir que a matéria que irá dar lugar a 1 kg de heroína pura se compra na produção por $US 500 e é mais tarde, depois de trabalhada e através de uma complicada cadeia de maléficos cangaceiros, vendida em doses parcelares aos consumidores ilegais por um preço que orça 1 milhão desses mesmos dólares! Quer dizer, os benefícios brutos alcançados com 1 kg de heroína - repito, benefícios brutos por quilo - podem chegar a atingir cerca de 25 000 contos! Não admira, portanto, que seja excessivamente laborioso destruir as redes de traficantes, tão habilidosa e inteligentemente montadas, e às quais, infelizmente e algumas vezes, estão ligadas personalidades havidas como importantes e com posições socialmente elevadas.
Este problema de combate à rede do comércio e distribuição clandestina de drogas compete, exclusivamente, à polícia e aos poderes judiciários, que muito têm feito, mas que muitíssimo mais devem ainda realizar, para poderem levar a cabo esta árdua tarefa. Para se avaliar das dificuldades da luta a travar neste campo, recordemos apenas que Nelson Rockefeller, o conhecido governador de Nova Iorque, que empregou os maiores e mais dedicados e entusiásticos esforços e correspondentes e vultosos dispêndios para humanamente combater a droga, chegou à triste, mas real conclusão de que teria de vivamente aconselhar, como único meio eficaz para se obter uma vitória, a condenação à prisão perpétua para todos os traficantes implicados no negócio dos calmantes e dos excitantes. E tinha carradas de razão para assim fazer esse alvitre, pois, na verdade e segundo relatam os jornais, em Nova Iorque a droga mata uma pessoa em cada oito minutos, número só por si manifestamente arrepiante na sua fria e nua crueza!
Por conseguinte, é de recomendar insistentemente ou, mesmo, de exigir, a bem da Humanidade, que à polícia sejam larga e generosamente proporcionados meios financeiros e em pessoal para que possa desempenhar cabalmente a sua ingrata mas meritória missão antidroga. Os investimentos que neste campo se fizerem serão, sem quaisquer dúvidas, muitíssimo inferiores aos que mais tarde se teriam de gastar para combater os perniciosos efeitos de uma toxicomania já instalada.
Prevenção. - Comecemos por acentuar a importância de esclarecer a população em geral, mas especialmente os jovens, acerca do que são as drogas e do perigo que constitui o seu consumo ilegal. Na certeza de que o problema da toxicomania se não resolve se não se falar nele, é indispensável que se expliquem as vantagens das drogas calmantes ou excitantes, quando judiciosamente receitadas por médicos, e se refiram de maneira clara e absolutamente honesta os gravíssimos inconvenientes do seu uso atrabiliário e indiscriminado. A elucidação tem de começar nas escolas, nas universidades e junto a outros grupos de jovens, e as explicações devem ser dadas por pessoal competente, conhecedor da matéria e devidamente treinado, em palestras curtas, seguidas de franco diálogo com a assistência. O que realmente parece tão fácil de dizer é, na prática, muito difícil de aplicar, especialmente pelo desinteresse que os próprios estabelecimentos de ensino manifestam por tão importante matéria.
A informação da juventude não deve apenas limitar-se a palestras e à discussão ou troca de impressões. É necessário difundir literatura apropriada e projectar filmes adequados, que os há de primeiríssima qualidade, para atingir os objectivos que tão ardentemente se pretendem.
A educação dos filhos e os problemas de família são, do mesmo modo e neste campo de prevenção, um aspecto justamente considerado como basilar. É hoje moda bastante generalizada deixar os filhos em plena liberdade de actuação, para que, segundo dizem os néscios, se lhes não diminua a personalidade! No fundo - e todos os jovens necessitam de ser orientados -, o que se verifica nesta trágica abdicação dos que têm responsabilidades no campo da educação da juventude é, acima de tudo, um imenso comodismo, uma renúncia lamentável que alguns pais adoptam perante as irrefutáveis obrigações que moralmente lhes competem.
Mais do que simples comodismo, eu diria que estamos perante uma vergonhosa covardia, uma fuga irresponsável frente aos compromissos que cada um tem o dever de assumir para com a sociedade em que vivemos, e que nos tem conduzido à crise da família, a que estamos assistindo com irreprimível tristeza. Mas além dessa educação, há o exemplo que é necessário dar, nas atitudes individuais, nas relações do conjunto familiar entre si e com o meio ambiente que o circunda, e na autoridade dos pais para com a compreensão dos problemas dos filhos. A este propósito não é descabido citar a bem conhecida frase de La Rochefoucauld, de que "nada há mais contagioso do que o exemplo"...
Por outro lado, sempre houve e continuará a existir o tão decantado conflito de gerações. Os mais idosos crêem-se senhores das chaves da sabedoria, enquanto os mais jovens atravessam frequentemente um período da vida em que se desinteressam pelo passado e se recusam a ouvir os solícitos conselhos dos mais experimentados. É imprescindível que estes saibam evoluir no tempo e que aprendam a escutar atentamente os jovens e a compreender os seus anseios à luz das realidades presentes, em especial a tendência que, porventura, possam vir a manifestar para o consumo de drogas e que consigam, ainda, discutir carinhosamente com eles esses tão intrincados problemas. Afirma-se, e muito justamente, que não há que temer a droga, mas, antes, a falta de contacto afectivo com a família. E todos estamos mais ou- menos de acordo em que a toxicomania é, em grande parte, uma anomalia psíquica originada pela falta de amor familiar.
Convém, ainda, a título preventivo, fazer interessar os jovens em ocupações sadias, muito em particular em intensas actividades desportivas. Nada há pior para conduzir a maus caminhos do que a ociosidade, pois quem nada faz está sempre predisposto a embarcar em situações de imprevisto, que, quantas vezes, levam a ocorrências verdadeiramente deploráveis.