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13 DE FEVEREIRO DE 1981 987

economia de acordo com os interesses dos trabalhadores.
O Governo AD, gestor inestimável dos interesses das multinacionais, trata de garantir que o preço da mão-de-obra seja apetecível, com poucos encargos de manutenção e reprodução, produzindo legislação - ou deixando as coisas à arbitrariedade das companhias- que impõe o agravamento das condições de exploração "e a degradação das condições de vida dos trabalhadores.
Bom seria que, quando se fala de recursos mineiros e do seu valor, se tivesse em conta aqueles que permitem e realizam a extracção desses mesmos recursos: os trabalhadores mineiros.
Mas esses só são olhados em termos de produtividade, ritmo de trabalho, horários insuportáveis.
As condições de vida e de trabalho do mineiro são de tal forma violentas e insalubres que ele chega, por vezes, a deixar para plano secundário as justas reivindicações salariais, face à urgência de ver solucionados os problemas mais elementares relacionados com a sua própria sobrevivência física.
Mas será impondo a contratação colectiva que poderá garantir não só um salário mais justo, mas também .melhoria nas condições de trabalho, segurança social e reforma.
O mineiro é o homem da noite, da escuridão, da surdez, da dermatose e da silicose.
Na galeria, no inclinado, até ao desmonte, rasteja por entre a floresta de barrotes que resistem, quando resistem, ao aperto brutal do da terra perfurada.
Oito horas enterrados, sem interrupção, irreconhecíveis por detrás das máscaras que enganadoramente retêm as poeiras inofensivas e deixam passar aquelas outras, ultrafinas, que vão transformar-lhes os pulmões num saco pesado e hirto, sem utilidade; ou então, enfarruscados, o primeiro igual ao último, apenas diferenciáveis pela distância a que se encontram do poço ou do desmonte, feitos graduação de uma qualquer escala métrica.
A força física do mineiro não se desenvolve, não se reforça; é uma energia que se degrada, extinguindo aos poucos a sua própria fonte.
O primeiro dia em que a utiliza é o princípio da sua debilidade irreversível, de um desgaste sem recuperação, dia após dia, como se não fosse um organismo vivo que se auto-regenera, mas antes, numa fatal identificação com as reservas minerais que extrai, como se não passasse de um filão inerte consumido até à exaustão.
E, como se isso fosse um dado assente, irrevogável, também lá no fundo durante oito horas, tem como alimento simbólico um saco de plástico com pão e conservas, uma dose de leite, uma peça de fruta, como se não passasse de um intelectual perdido no labirinto e não um homem sujeito a um tremendo desgaste físico e psicológico.
Come todos os dias uma ração de combate, o mineiro!
Mas o combate que trava não é tanto com o minério ou com a própria terra que revolve. Apesar de tudo, entendem-se.
O verdadeiro combate é com a administração da empresa, que o utiliza como se pouco mais fosse do que um martelo vibrador ou uma vagoneta de transporte.
A jaula em que os mineiros sobem os 300 m ou SOO m até à superfície é um engodo, como se o inferno ficasse lá em baixo.
Mas não! À sua espera, cá em cima, como se a administração subitamente generosa não quisesse traumatizá-los com contrastes repentinos, estão as instalações precárias, os transportes não pagos, o magro salário -dos mais reduzidos entre os operários do nosso país -,- a caserna ou, por vezes, a casa a desabar, tragada pela mina.
O mineiro vive na angustia permanente, obsessiva, de não chegar nunca o dia em que poderá usufruir de uma reforma justa. E se lá chegar, muito provavelmente a silicose tomou conta dele, trapo velho deitado fora, sem uso, por usado de mais, com reforma de miséria. Sem forças para continuar a viver.
Esse dia chega aos 55 anos de idade, vinte e cinco de fundo de mina, se a silicose o justificar, o que é sempre difícil com uns serviços médicos ligados à empresa ou a companhias de seguros que põem à frente de tudo a sua taxa de lucro.
Para a administração o que importa é o teor, o teor médio, a rentabilidade. Aumentar a produtividade.
A equação homem-máquina, homem barato por a máquina ser cara, apesar de ela própria ser construída por outros homens baratos, eis o problema a resolver pela gerência. Isso só aos técnicos diz respeito...
Assim como as condições de trabalho, dizem eles.
Os trabalhadores estão demasiado ocupados a trabalhar.
Por isso na Urgeiriça, a comissão de trabalhadores foi impedida de acompanhar o deputado e a delegação da UDP.
Não percebem nada, disse o presidente da administração.
Mas não é esse o entender do deputado da UDP nem da comissão de trabalhadores, que mostrou em comunicado aos trabalhadores o que significa exactamente tal atitude.
O que se passou na Urgeiriça foi um grave atentado aos direitos dos trabalhadores e um total desrespeito pelos seus órgãos de classe. De acordo; aliás, com a política do governo AD, que estimula, e apoia tais comportamentos, que vão ao encontro da sua intenção de liquidar mais ou menos violentamente as conquistas dos trabalhadores.
As potencialidades do nosso país em urânio são enormes, segundo o engenheiro Albuquerque e Costa, da Urgeiriça, e torna-se, portanto, necessário que a sua exploração decorra sem sobressaltos e dentro dos níveis de produtividade requeridos. Até porque, para melhor aplanar o caminho às multinacionais, as empresas nacionalizadas vão sendo, financeira e economicamente estranguladas.
Por isso as máquinas a gasóleo no interior da mina, mesmo que isso acentue perigosamente os níveis de toxicidade de atmosfera.
Por isso a gradual eliminação dos direitos democráticos dentro da empresa, feita quartel.
No conto mineiro do Pejão novas técnicas de exploração permitem maior rentabilidade. Chaminés, inclinados, transporte por gravidade, substituição do enchimento das galerias pelo abatimento do tecto...
As casas do Picão, bairro que fica por cima do traçado da mina, construídas há vinte, trinta ou mais anos, também abatem.