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962 I SÉRIE-NÚMERO 22

violetas, entre vocalização e música, entre níveis de produção popular e erudita; intérprete entre a síntese da interioridade e da sua expansão sem nunca esquecer a tortura, apenas, do essencial em fios subtilmente ocultos de um movimento encantatório, muitas vezes circular, para um abraço - um diálogo - de amor e morte, tudo isso foi. É.
Corria o ano de 1977. Na cidade do Porto fazia-se uma homenagem ao poeta Eugénio de Andrade. Numa das sessões em que estava presente Lopes Graça, o mais impressivo que ali se ouviu foi talvez o testemunho do maestro: O Mar de Setembro Trouxe-me à Tona da Vida. Desses poemas surgiria o ciclo de canções Mar_ de Setembro que comemoraria o centenário de Claude Débussy.
Mais uma vez o diálogo, desta vez entre & música feita palavra e a música feita outro som. E mais uma vez o testemunho conjunto da metamorfose do humano a que a arte leva, sublimando.
Na fala secular da correspondência das artes, da correspondência dos homens, é tão importante o livro como a catedral, como a sinfonia. E soarão com igual plenitude para todos os tempos as palavras dos livros, os cinzéis das catedrais, os pianos de Lopes Graça. Uns põem em vibração a fala, outros a pedra. O mestre pôs o ar em vibração.
Fernando Lopes Graça é timbre da nossa consciência nacional.

Aplausos gerais.

O Sr. Presidente: - Por especial concessão da Mesa, tem a palavra o Sr. Deputado Vasco da Gama Fernandes.

O Sr. Vasco da Gama Fernandes (PRD): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Ainda está por escrever a história da resistência em Portugal, na qual Lopes Graça ocupa um lugar primacial.
No ano de 1928 - vejam quanto tempo já passou - nós, estudantes universitários, revoltamo-nos contra à ditadura. Nessa altura, Lopes Graça era estudante de Letras e eu um simples caloiro da Faculdade de Direito de Lisboa. Já nos conhecíamos do liceu e, nesse tempo, ele era já a inteligência viva e o espírito insubmisso do homem que nunca tergiversou, nunca se bandeou, nem nunca teve medo.
Somos amigos fraternais e, por isso, seria contra a minha consciência não proferir estas palavras em meu nome próprio e dizer que a Câmara praticou uma boa acção, lembrando aos que se esquecem com facilidade das grandezas da nossa pátria que Lopes Graça foi e continua a ser um Homem (e um homem com letra grande!).
Em 1930-1931 acamaradámos nas lutas académicas, mas Lopes Graça teve mais sorte do que eu, que fui preso e deportado. Mas Lopes Graça não precisou nem de ser preso nem de ser deportado para atravessar, como uma luz intensa e brilhante, a intelectualidade portuguesa, deixando um rasto que nunca mais se pode esquecer.
É com muito comoção que, em nome da minha geração, vos agradeço a todos.

Aplausos gerais.

O Sr. Presidente: - Ainda para uma declaração de voto, tem a palavra o Sr. Deputado Frederico de Moura.

O Sr. Frederico de Moura (PS): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Agora que Fernando Lopes Graça - nascido em 1906 - atinge os seus 80 anos, com 66 anos de uma vida operosa de artista, muitas vezes, aliás, entrecortada de escolhos de ordem vária e de várias gradações que a tirania lhe semeou no trajecto, não podia o Grupo Parlamentar do Partido Socialista - fiel, como sempre, aos valores culturais da Pátria- deixar de votar favoravelmente o voto de saudação que a Assembleia tributa ao artista nesta hora em que a anciania -não a velhice! - o tornam credor do respeito dos seus compatriotas.
Desde os 14 anos de idade com que, como pianista, integrou o quinteto que animava os intervalos do cine-teatro da sua terra, e que, após a sua dissolução, ficou solitário como pianista a aproveitar a ocasião para difundir a música russa do final do século passado, até à idade proveta que, este ano, comemora, que o seu afã na criação e na difusão da música - particularmente da música tradicional portuguesa - não sofreu um colapso.
Investindo - corajosamente - contra o cercado de hostilidade que lhe tentou frenar o ímpeto criador; saltando o arame farpado que, ao longo de quase meio século de medievalismo enxertado, lhe tentou confinar a sua actividade, Lopes Graça não deixou arrefecer a mão, desalentadamente, sobre a pauta em que compunha nem sobre o teclado do piano em que interpretava.
Conclui em 1921 o seu curso no Conservatório de Lisboa com as mais altas classificações e logo, em 1928, ingressou no curso de virtuosidade, onde, durante três anos, trabalhou com Viana da Mota; e já em 1929 cria os seus primeiros trabalhos - Variações num Tema Popular Português e o Poemeto para Orquestra de Arco. A par disso, e de colaboração com Pedro Prado, publica a revista Da Música, onde dá largas ao seu pendor de crítico e de ensaísta, sobretudo debruçando-se sobre a obra de Stravinski. E a partir daí surge o crítico aguerrido e polemizante, bem expresso na polémica com Ruy Coelho.
Em 1921 - data em que compõe a Anteriana, que é a sua primeira manifestação de pendor para os lieder sobre poetas portugueses -, concorre a professor de piano do Conservatório, onde foi classificado em primeiro lugar. Mas como era sinal dos tempos, a decisão do júri foi anulada pela sanha rábica da polícia política que obstou à nomeação, encarcerando-o durante vários meses e coroando a prisão com um desterro para Alpiarça.
Em 1937, após outra prisão, desloca-se, no mês de Maio, a Paris e logo, em 1928, é encarregado pela Maison de la Culture de musicar a revista-bailado La Fièvre du Temps, ao mesmo tempo que frequenta na Sorbonne a cadeira de História da Música.
É, evidentemente, impossível numa simples declaração de voto, temporalmente condicionada, percorrer-lhe o trajecto biográfico e artístico que - por fecundo - é naturalmente extenso.
E, assim, na impossibilidade de lhe percorrer o itinerário artístico, realça-se o que de mais expressivamente o ligou à cultura portuguesa, quer através dos lieder sobre poetas portugueses que, e para além da sua Anteriana, inclui a História Trágico-Marítima os Poemas Ibéricos, de Miguel Torga, a Pastoral, de Afonso Duarte, canções de António Botto, poemas de Fernando Pessoa, Régio, Carlos Queirós, Camões, José Gomes Ferreira, Casais Monteiro, etc.