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I SÉRIE — NÚMERO 1

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O Sr. Presidente (Fernando Negrão): — Retomando as declarações políticas, dou agora a palavra ao Sr. Deputado João Pedro Gonçalves Pereira, do CDS.

Faça favor, Sr. Deputado.

O Sr. João Gonçalves Pereira (CDS-PP): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: No final da passada Sessão Legislativa, também como declaração política, apresentei aqui a disponibilidade do CDS para contribuir,

ora em escrutínio, ora em complemento, para a urgente recuperação económica do País no período pandémico.

Aqui estamos, Srs. Deputados, e é com pesar que não encontro essa disponibilidade no Governo, a quem

cabem, naturalmente, as responsabilidades primordiais dessa mesma missão.

Li e escutei atentamente a apresentação da dita Visão Estratégica para o Plano de Recuperação que aqui

hoje debatemos. E em todo esse processo, lembrei-me de uma velha regra socialista: os socialistas, quando

não querem falar do que não fizeram, lançam grandes debates daquilo que nunca farão.

Além da já habitual tendência para pensar em forma de década, dei também conta da necessidade do Eng.º

Costa Silva de apresentar os mais de 1000 contributos que recebeu dos cidadãos portugueses com uma moldura

ideológica que pertence mais ao PS do que a esses mesmos cidadãos: «uma derrota histórica das ideias

ultraliberais», disse o Sr. Engenheiro.

Achei, Sr.as e Srs. Deputados, verdadeiramente extraordinário que um plano que se propõe pensar a 10 anos

ainda venha embrulhado na retórica da crise anterior, felizmente vencida, como deve ser, com o esforço de

todos os portugueses.

Honestamente, não me recordo de ouvir, nesta Câmara, uma única voz defender que a solução para vencer

esta nova crise passe por anular o papel do Estado na economia ou na sociedade portuguesa, como, aliás, não

me recordo de ouvir em nenhuma das anteriores legislaturas.

É estranho que, perante a dimensão dos desafios que hoje enfrentamos, os Srs. Membros do Governo e

demais consultores insistam em preferir a retórica à realidade, o remoque ideológico ao contributo sustentado

ou o fogo de vista à visão concreta.

O Sr. Telmo Correia (CDS-PP): — Muito bem!

O Sr. João Gonçalves Pereira (CDS-PP): — Não merecerão os portugueses um pouco mais do que isso, Sr.as e Srs. Deputados? Estou em crer que sim.

Lendo as propostas da Visão Estratégica, no entanto, não se dá por essa «grande vitória do Estado» que o

autor tanto apregoa. Vamos a dois exemplos rápidos. Defende o documento, e cito, «o financiamento de

programas de apoio social de proximidade com parcerias entre os municípios e…» — imagine-se! — «… o

terceiro setor» e, mais, Srs. Deputados, vejam bem, «a abertura da ADSE a todos os ativos com emprego».

Este não é um programa da oposição. Atente-se: é o plano de retoma para o Governo implementar, que é

socialista na apresentação, liberal na imaginação e irreal na concretização. Afinal, Sr.as e Srs. Deputados, parece

que não é só o Estado que nos vai salvar.

Tão ou mais grave do que o aparato narrativo, detetei também outra tradição do Partido Socialista nos tempos

mais recentes. Lendo o Plano de Recuperação, Srs. Deputados, há algo que salta à vista: está projetado, mas

não está orçamentado, e imaginou-se tudo em grande, mas não se fizeram grandes contas.

Num mundo ideal, claro que somos todos a favor de um maior investimento público, o mesmo que este

Governo levou a mínimos históricos desde antes da democracia, e também somos todos a favor do reforço do

Estado social, o mesmo que este Governo cativou como nunca antes em Portugal.

Mas, Sr.as e Srs. Deputados, como é que vamos ter todo este Estado? Com que economia? Como é que

vamos lá chegar? Com que saúde orçamental? Com que SNS? Com que financiamento?

De boas intenções está o Estado cheio, como todos sabemos. Mas de que serve prometer o mundo quando

nem o mínimo se consegue cumprir? De que serve fazer documentos sobre reindustrialização quando nem as

linhas de crédito para manter as empresas que, de facto, existem estão totalmente operacionais? De que vale

falar em infraestruturas quando os nossos comboios são comprados nas sucatas de Espanha, com amianto nas

carruagens, e ainda nem sequer tirámos o amianto das nossas escolas?

Temo, Sr.as e Srs. Deputados, que a Visão Estratégica do Eng.º Costa Silva tenha o mesmo destino que a

Agenda para a Década do Prof. Centeno: um autêntico vazio.