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Entretanto, levantou-se o problema do Brasil e das reciprocidades relativas ao Brasil e, agora, às ex-colónias portuguesas. Devo dizer que este é um problema político sério e que tem de ser visto com muita seriedade pelos Srs. Deputados. Há pouco, o Sr. Deputado Osvaldo Castro, quando estava a dizer que podia chegar a um acordo com o PSD, afirmou: "Isto é política". Sinceramente, se me permitem fazer um apelo, gostaria que não houvesse política partidária nesta questão do Brasil, porque ela é de uma importância transcendente para o futuro de Portugal. Peço desculpa por estar a chamar a vossa atenção para esse aspecto, mas a verdade é que assim é.
Ora, os brasileiros sabem (porque têm informações e, aliás, é para isso que têm cá uma embaixada e tudo o mais) que foram feitas estas diligências, que houve pessoas que fizeram abaixo-assinados e se agora, por uma questão que não tem propriamente a ver com o Brasil, por uma questão partidária, por uma coisa destas - que é, a meu ver, lana-caprina -, se viesse a negar esta reciprocidade, penso que os brasileiros teriam toda a razão (e eu seria o primeiro a dá-la) para ficarem extremamente ofendidos com o que se passa. Ainda por cima porque já é a segunda vez que acontece, e esta é uma situação desagradabilíssima!
O Brasil é um grande país que está num mau momento mas todos os portugueses que forem ao Brasil sentem isso, sentem que é um grande país! É um país que todos nós devemos ter no coração por todas as razões! São 170 milhões de pessoas que falam a nossa língua! A unidade política brasileira foi dada por Portugal e pelo nosso D. João VI, quer se queira quer não!

O Sr. Pedro Roseta (PSD): - Muito bem!

O Sr. Dr. Mário Soares (PS): - Tudo aquilo que foi feito e as ligações que existem, o carinho com que eles tratam os portugueses, sempre e em todas as circunstâncias, é algo que nós… E ainda lá temos 1 milhão de portugueses ou de luso-descendentes, facto que também não podemos esquecer! Portanto, devemos tratar esta matéria com muita atenção.
Se, por acaso, fosse verdade - mas não acredito que seja - que o Governo português tivesse entendido que não se devia falar nesta questão do Brasil, eu seria o primeiro a criticar duramente o Governo português, porque penso que isso não tem sentido algum. Em política externa, o Brasil é uma "trave" imensa de Portugal. Nós, portugueses, colocámos lá recursos e poderá ser discutível, em termos estritamente económicos, se o devíamos ter feito ou não. De qualquer modo, foram os grupos económicos que o fizeram e não o Estado português, se bem que alguns tenham tido uma "mão" ou um impulso do Estado português. A verdade é que colocámos esses recursos que, inclusivamente, estão em quebra, no que respeita às acções.
No entanto, o ex-Ministro Pina Moura foi ao Brasil e disse uma frase muito inteligente. Quando lhe perguntaram "Então, agora os portugueses vão retirar os seus investimentos?", ele respondeu: "Não! Nós fizemos estes investimentos para mais cinco séculos, e não para flutuarmos depois de uma quebra das acções". Por isso é que pergunto: fomos capazes de fazer isso e agora vamos estragar tudo por uma questão política que, a meu ver, não tem razão de ser? Não pode ser, não podemos fazê-lo!
Acrescento agora um outro aspecto que é importante que saibam: temos de assumir que correram muito mal todas as actividades que levámos a cabo para celebrar os 500 anos da descoberta do Brasil!

O Sr. Miguel Macedo (PSD): - Exactamente!

O Sr. Dr. Mário Soares: - Posso dizê-lo porque me nomearam Presidente da Comissão de Honra dessas comemorações e eu, porque fazia parte da minha função, propus ao Governo que nomeasse uma Comissão de Honra de Altas Individualidades Portuguesas. Elas foram nomeadas mas depois disso não se passou nada. E nós assistimos, tanto a Dr.ª Manuela Aguiar como eu, porque fomos na viagem presidencial ao Brasil, ao que se passou. Por culpa, em parte, dos brasileiros e por razões políticas brasileiras do momento, mas também por culpas nossas. E a questão do tratado é uma delas. Eu nunca "engoli" este tratado, porque ninguém teve conhecimento dele até ao momento em que ele foi feito. Isto não era um tratado para ser feito por duas chancelarias! Não era! Era um tratado para ser discutido por todo o povo português e, não sei porquê, prescindiu-se disso! Como digo, não sei por que razão foi assim, mas há aqui pontos que excedem a minha compreensão.
Se, ainda por cima, nós não aprovarmos esta reciprocidade, depois de a termos anunciado e proposto, sinceramente, creio que será muito mau para o futuro das relações entre Portugal e o Brasil. Já tivemos um caso terrível que, felizmente, foi ultrapassado e esquecido, que foi o caso dos dentistas: depois de os brasileiros terem recebido milhões de portugueses ao longo dos tempos, nós discutimos um problema de dentistas. Mas espero que não entremos outra vez numa chicana com o Brasil, pois seria extremamente desagradável.
Eu tenho o dever de vos dizer isto.
Quanto a tudo o mais que me perguntaram, devo dizer que estou de acordo com as intervenções de todos, de uma bancada e de outra. A questão que me colocou o Deputado Jorge Lacão passa um pouco à margem daquilo para que estava convocado, mas eu, não conhecendo bem a situação, não tenho dúvidas em responder que sim. Já a questão que suscitou quanto ao nativismo é mais difícil de responder, mas não sei por que é que há esta súbita… Sabe, infelizmente, há muitos portugueses que não conhecem o Brasil e, muitas vezes, daquilo que não conhecem fazem uma ideia, imaginam uma coisa que é diferente da realidade. Disse uma vez, e permito-me repeti-lo aqui, que devia ser obrigatório para todos os portugueses irem ao Brasil com 20 ou 25 anos. Deviam fazer uma visita ao Brasil, porque não há mais nenhum país no mundo, mais sítio nenhum da Terra onde se sinta tanto orgulho em ser português como quando se vai ao Brasil. Esta é que é a verdade!

A Sr.ª Maria Manuela Aguiar (PSD): - Muito bem!

O Sr. Dr. Mário Soares: - As pessoas chegam ao Brasil e dizem: "Caramba! Portugal fez isto?! Como é que foi possível?!". E isso é algo que nos dá um orgulho extraordinário em ser português e é preciso acarinhar essa relação, o que tem um reflexo para África. A África está hoje como está, todos conhecemos a situação africana, mas daqui a 10 ou a 50 anos não estará! Ora, tudo o que