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27 DE MARÇO DE 1957 421

Esta orientação que agora se pretende instaurar terá, nem dúvida alguma, a aprovação de alguns médicos. É bom ser-se conduzido na vida profissional por mãos protectoras e ocupar os lugares por convite, sem risco de fracasso e sem competição.
No dia em que essa orientação se estender aos organismos que por agora ainda possuem uma estrutura de recrutamento -o que não poderá tardar- então a carreira médica terá entrado na sua fase paradisíaca.
Será a «sopa de Arroios» dos nossos tempos.
De novo, como já se disse a propósito dos directores clínicos, a competência indiscutível de alguns dos homens que hoje ocupam vários desses postos não cobre o rasgão, nem fecha a porta aos oportunistas da medicina e às conveniências pessoais ou políticas. Porque é claro que desta forma a política governamental de assistência tornar-se-á, conscientemente ou não, num instrumento político.
Quanto ao internato - base fundamental de todas as carreiras -, encontra-se no Hospital Escolar sem estatutos, sem articulação com o internato dos Hospitais Civis de Lisboa, sem qualquer garantia da sua necessidade para o futuro, tantas são as portas abertas para os caminhos fáceis, e até há dois dias sem quadros estabelecidos. Se a força e importância deste estágio de elite já se estava perdendo, ainda mais se acentuou a sua queda no nosso mais belo hospital, onde reina o desprezo completo pelas suas funções e finalidade educativa geral, que foram positivamente destroçadas.
A repercussão deste desconcerto na mentalidade de jovens na fase mais delicada da sua formação intelectual e moral é incalculável.
Em má hora vim para a Assembleia Nacional, para me encontrar na triste e dura obrigação de expor estas desventuras.
E, para acabar, posso reunir em poucas palavras o que tenho a dizer sobre a enfermagem. Não há escola. Não há enfermeiras em número suficiente. Como para muitos outros cargos, os vencimentos não correspondem ao trabalho, ao nível intelectual e ao sacrifício exigidos.
Por isso haverá pouca influência às escolas. Por isso muitas enfermeiras se afastaram do Hospital Escolar e se acentua diariamente a baixa da qualidade e da quantidade. Por isso os postos de maior responsabilidade estão sendo ocupados mais e mais por pessoas sem a preparação necessária ou em posição falsa, por não possuírem os títulos competentes.
Poderia ter ampliado cada aspecto focado até agora. Poderia encarar outros aspectos. Parece-me que posso ficar por aqui.
Ao rever e apreciar em bloco todos os fragmentos deste enorme puzzle, de que apenas pude referir uma parcela, quase desaparece o desejo de o comentar.
O que foi dito deve, todavia, bastar para se formar o juízo de que se estabeleceu uma desordem, gerada pela excessiva riqueza em poder e acentuada pobreza no fazer. E, nessa desordem, formou-se o clima em que tudo é permitido, porque nada é consentido.
Se do lado do Governo e entidades directamente ligadas a ele existem grandes culpas, elas não deixam de existir do lado dos próprios médicos. Constituiria uma falta não o dizer. As inimizades e as invejas, as intrigas e a maledicência, os exclusivismos que sobrelevam a tudo, as tolerâncias, as fraquezas e até as subserviências por conveniência própria, as visões curtas como um dedo e as ambições vastas como o mar muito contribuíram para este estado de coisas.
Sei que muitos destes defeitos são mais ou menos comuns aos médicos de todo o Mundo, que juntamente com os artistas constituem as classes mais complicadas do Universo e de que talvez eu constitua para V. Ex.ª, Sr. Presidente, um magnífico exemplo. Mas presentemente todos estes defeitos estão fortemente exagerados entre nós.
A classe médica perdeu muito do sentido de unidade, que lhe permitiria defender melhor as suas leis básicas, e os seus elementos comprometeram muitas vezes a natural ordenação das coisas. Mas isso não desculpa o Governo, que deveria, pelo seu bom senso e sentido de organização, ter provocado um sentimento igual numa classe naturalmente educada e cujas qualidades se não perderam. Pelo contrário, criaram-se situações equívocas e instáveis, próprias para se desenvolverem os conflitos, as dificuldades e o mal-estar.
Um dos aspectos mais esgotantes do combate que travei na defesa de alguns princípios e das suas aplicações foi o ambiente em que essa luta se desenrolou. Foi a oposição quase sistemática a tudo, pelo subterfúgio, o esquecimento, o sofisma, a confusão, os exemplos parciais e a incompreensão. De facto, não se quis ver. Mas tanto se ouve dizer que as coisas se parecem com aquilo que não são, dão-nos tantas explicações a demonstrar que existe aquilo que julgamos não existir, que à força de repetições deste género os cérebros perdem um pouco da sua lucidez e começam a perguntar a si próprios se afinal não estará tudo certo. Isso já me sucedeu várias vexes.
Um combate nestas condições esgota e desanima o mais bem intencionado, por nunca ter possibilidade de acabar. É um avanço aparente por uma estepe sem fim. Todos os dias a questão está no ponto de partida. E assim se passam três anos e meio de protelamento em protelamento, para dar oportunidades àquilo que afinal não veio e evitar as conclusões precipitadas.
E a matéria do aviso, a sua razão de ser, está agora julgada e no fundo do oceano.
Venceu o sistema de colonização dispersa, centralização ministerial de todo o poder e estiolamento profissional.
O que se tem criado ou melhorado tem-no sido, como acontece nestas situações, por actividades isoladas ou pela força das circunstâncias. Uma e outra passam-se muito bem de criticas gerais.
Como disse no princípio deste ciclo que hoje se encerra, não sinto sombra de azedume e o meu espírito está equilibrado e natural. Porque, ao mesmo tempo que dediquei todo o meu esforço a este estudo, nunca me esqueci de que é preciso aceitar os meios como eles são, tal como se deve proceder para com os homens. E sobre a nossa terra fixou-se para sempre na minha memória uma definição de Jorge Cid, esse humorista perdido, colaborador de Rafael Bordalo: «Portugal é o paraíso da inverosimilhança». E é preciso tomar a frase no seu bom e mau sentido. Somos assim.
Tenho, por isso, de reconhecer apenas que a minha crítica não foi útil e voltar quanto antes para o trabalho a que votei a minha vida. Tomada esta decisão há dois anos ou mesmo há um ano, isso corresponderia ao meu pedido de renúncia. Mas, a mês e meio do termo do período parlamentar, isso torna-se desnecessário, e o gesto poderia ser explorado e deturpado na sua significação. Mas, de facto, é uma renúncia moral que agora realizo.
Neste momento é-me grato referir-me a vários aspectos pessoais.
A extrema correcção da Assembleia pela minha pessoa nunca se desmentiu. Julgo mesmo ter criado nesta Casa alguns amigos, que muito prezo.
Fui atendido com facilidade e amabilidade pelos Srs. Ministros, sempre que o solicitei, e não se contam as horas que me dispensaram. Permitiram que expusesse sem reservas o meu pensamento e nunca, na maior e mais violenta oposição intelectual, se comprometeram as nossas excelentes relações pessoais.