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17 DE MARÇO DE 1973 4803

Surge então a droga como "válvula de escape" artificial. Muitos têm a sensação de que não é o método normal de distracção e repouso; mas de momento satisfaz. Esperam que lhes proporcione conhecerem-se melhor, descobrirem um novo modo ou género de vida onde o descanso, a tranquilidade, seja possível.
Desse relatório nacional se recolhe um outro testemunho insuspeito de drogado:

Recorremos às drogas para descobrir até onde podemos ir e não para nos abandonarmos à passividade. As drogas são um meio artificial de preencher a distância que separa as nossas aspirações das nossas possibilidades.

Para alguns, este estado de depressão manifesta-se por uma falta de fé total no futuro. Não querem mesmo conceber esse futuro. "Entre os da nossa geração", dizia uma rapariga, "há muito poucos que imaginam poder ultrapassar a idade dos 40 anos."
Parece impor-se despertar nos jovens um novo ideal, a fim de que possam encher-se de coragem para suportar a competividade e aspereza do mundo futuro, viver plenamente a vida à dimensão dos seus sonhos. E é aí que intervém a droga, perigosamente, ao impedir os jovens de se prepararem para assumir o papel que o destino lhes reserva no dia de amanhã.
Existe, por último, entre certos consumidores de drogas uma personalidade patológica que provoca essa verdadeira "faísca ou combustão toxicológica" (Logre), quando há um encontro entre esses indivíduos e substâncias, podendo dar origem a toxicomanias.
Essas pessoas podem vir a encontrar-se em contacto com a droga de maneira por vezes acidental, seja através de um utilizador em busca de adeptos, seja posteriormente a um acto terapêutico para acalmar a dor, reduzir a angústia ou proporcionar o sono. Outras vezes, a droga é procurada conscientemente, sobretudo no período de adolescência, como substituto de outros prazeres.
Devem mencionar-se ainda numerosas outras causas, tais como o desejo de viver novas aventuras, experiências humanas e sexuais, reacção contra a "sociedade de abundância" ou mesmo "da opulência", desejo de alienação, de descomprometimento ou procura de um meio para ultrapassar momentaneamente os limites normais de resistência física.
Analisada, assim, a droga, símbolo sobretudo de um fosso entre os jovens que querem criar, imaturamente, o seu próprio sistema de valores baseado em conhecimentos e experiências inacabados e o mundo adulto, cujos valores se basearam - quando não cristalizaram - na experiência e conhecimentos do passado, importa reflectir, por último, em termos de soluções para além daquelas que naturalmente decorrem do combate contra o tráfico ilícito da droga é sua produção e distribuição irregulares.
Sr. Presidente: Parece não haver receitas únicas que permitam convencer jovens e adultos dos riscos que incorrem pelo consumo abusivo de drogas. Há, no entanto, alguma experiência que pode influir no que se deve ou não dizer e fazer.
Duas atitudes extremas parecem ser de rejeitar, por ineficazes: a que consiste em deixarmo-nos invadir pelo pânico, ou essoutra do avestruz, que, escondendo a cabeça na areia ou erguendo-a demasiado acima dos mortais, prefere não encarar a luz crua da realidade que se lhe apresenta ou avizinha.
O pânico fez sempre exagerar os problemas. Tudo se torna então sombrio: vivemos no século das drogas; a droga é a morte da sociedade; se não extirparmos o hábito de consumir drogas, em breve a humanidade perecerá, e outras afirmações de idêntico jaez.
Em sua intenção de tentar proteger o bem-estar dos indivíduos e o futuro da sociedade, os propagandistas do pânico podem ser levados - por devotamento extremo - a exagerar as estatísticas dos consumidores, que serão então mais fruto de ardor salvatérico do que, verdadeiramente, de ciência certa.
Os resultados não poderão deixar de ser contraproducentes: as pessoas que até aí se acreditavam normais, julgando-se ora marginais, fora do andar dos tempos e das modas, sentir-se-ão tentadas a engrossar o grupo dos desviados. E ao reconhecerem que certas drogas são menos graves do que por vezes se afirma, poderão ser levadas a experimentar outras, bem mais perigosas, que por esta via inconsciente se lhes tornam desejáveis.
Mas a inversa não é menos eficaz. Tal política de avestruz expressa-se por: exagera-se de mais; não acreditamos; esperemos para ver; aliás, já temos visto outras modas; não há nada a fazer; o melhor é esperar; o tempo é o melhor conselheiro, e outras expressões similares.
A auto-suficiência como as frustrações, o convencimento como a desilusão, o receio de encarar de frente a realidade bem como o medo de aceitar certas transformações económico-sociais, o risco do esforço ou o temor de se comprometerem em obra que a todos chama, são, entre outros, motivos que podem cristalizar uma certa demissão ou passividade de atitudes.
Nem tanto, pois, ao mar nem tanto à terra... No equilíbrio poderá estar a virtude.
Deixemos de lado os indutores de pânico, os "cabeças de avestruz" e seus primos mais chegados: os autoconvencidos de que têm a verdade, a verdade inteira, agarrada por uma perna e para todo o sempre, procuremos serenamente reflectir.
O primeiro elemento da nossa reflexão deverá ser: as pessoas tomam drogas, e tomam-nas em maior número e mais frequentemente. Parece ser facto relativamente assente:" o número de adultos que consomem sedativos aumenta, o de jovens que procuram alucinogéneos os segue.
O segundo elemento pode apresentara por estoutra forma: mas corresponderá verdadeiramente esse consumo a necessidades terapêuticas, medicamentosas? Se sim, as drogas constituirão solução para tal patologia? Se não, onde reside o problema?
É sobre estes elementos de reflexão que deveremos centrar os mecanismos de prevenção, nomeadamente no campo educacional e civilizacional, muito antes dos de recuperação, ou cura dos transviados. Que são, aliás, necessários.
Imediatamente nos veremos confrontados com um dilema: com efeito, se o consumo responde a uma necessidade, então a sociedade dita "ocidental" (ou alguns dos seus membros) pode estar em parte doente para ter de recorrer a tais narcóticos - o mal é lá com eles, mas a organização e vida social podem ter a ver algo com o problema e, não devendo coarctar-se o