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1760 I SÉRIE-NÚMERO 45

em saco roto como que mais uma das louvaminhas que podem dizer-se a seu respeito.
Quereria, isso sim, que essa coragem ainda hoje pudesse perdurar em todos os portugueses, aos quais daqui lanço um apelo para que deixem de lado os seus egoístas chinelos de quarto e principalmente os seus adormecidos valores de combate e venham para a luta de todos nós que, ao fim e ao cabo, será também a luta de cada um deles.
Humberto Delgado não ficou em casa quando foi preciso sair, não se calou quando foi necessário falar, não se acomodou quando foi indispensável ser incómodo para quem oprimia.
Humberto Delgado, com a quase certeza de uma derrota, não teve medo de nada nem de ninguém.

Aplausos do PS e do PSD.

Veio dizer aos portugueses que era possível virem a ser livres.
E os portugueses, numa maioria esmagadora, acreditaram nele.
Só que não foram capazes de o acompanhar: uns pelo medo, outros por conveniência, outros ainda por comodidade e egoísmo, muitos por impossibilidade física e material.
Hoje, temos a obrigação de não esquecer o exemplo. Temos a obrigação de lutar, na medida das nossas forças, é certo, mas sem medo, sem oportunismos covardes, sem egoísmos inclassificáveis.
Hoje, talvez mais do que nunca, é preciso que não se esqueçam as nossas obrigações na luta pela liberdade.
A liberdade depende de nós e só de nós.
Os que são precisos não podem escusar-se. Os que têm algo para dar à democracia não podem negar-lho. O valor de cada um tem de vir ao de cima, para servir a comunidade, e não apenas para servir a si próprio à sombra daqueles que se dão e se arriscam na luta pela democracia.

Vozes do PS e do PSD: - Muito bem!

O Orador: - A história do general Humberto Delgado não é ainda hoje suficientemente conhecida do povo português. Muito se sabe sobre ele mas talvez muito mais haja para saber. E é preciso que se saiba tudo.
Sabe-se que o seu valor era tanto e tão grande que os seus adversários, só pela sua morte, dele e do seu projecto, entenderam poder libertar-se. A sua prisão não chegava. Era preciso matá-lo. E mataram-no, numa cilada miserável, através de uma polícia política que não recuava perante nada. Mas é preciso saber quem o empurrou para a morte, quem o fez cair na cilada em que caiu.

Aplausos do PS e do PSD.

Não foi a sua falta de inteligência ou de previsão, nem a sua coragem, que não conhecia perigos e deles se ria a cada passo.
É preciso saber como, em que condições é que o general Humberto Delgado veio até junto da fronteira portuguesa. O que é que ele esperava, com quem é que contava, com quem vinha, para onde ia e o que ia fazer.
É aqui que reside uma penumbra que ainda se não clarificou. E esta clarificação devemo-la nós e o País à memória do general Humberto Delgado.
Necessariamente - tenho para mim isso como certo - há quem o sabia. Não tenho disso a menor dúvida.
E se há, é preciso que tudo se esclareça, é preciso que os que sabem o digam, sem tibiezas, sem artificialismos e sem mentira.
Ficar calado perante situações destas é também covardia. Esconder ou não explicar o que tem de ser claro é também atitude indigna e imprópria.
Aqui fica, pois, e nesse sentido, o meu segundo apelo.
Para terminar, Sr. Presidente e Srs. Deputados, na devida palavra de saudade de quem com ele privou, embora pouco, mesmo muito pouco para quem queria que tivesse sido muito. A saudade de um português que a morte levou covardemente, a saudade de um homem valente, forte nas suas convicções, tendo dado, e gratuitamente, ao povo a quem ele tanto queria e a quem ele queria devolver a liberdade que lhe faltava, o povo a quem deu a sua vida.

Aplausos do PS, do PSD e da ASDI.

O Sr. Presidente: - No decurso desta intervenção, pediram a palavra os Srs. Deputados César Oliveira e Carlos Brito. Se é para pedidos de esclarecimento devo informar VV. Ex.ªs de que já não será possível formulá-los pois ultrapassam a hora do período de antes da ordem do dia. Ficarão, pois, com a palavra reservada para uma próxima oportunidade.
Para uma interpelação à Mesa, tem a palavra o Sr. Deputado Carlos Brito.

O Sr. Carlos Brito (PCP): - É apenas para um desabafo, Sr. Presidente. É pena que isso aconteça, pois a intervenção que o Sr. Deputado Montalvão Machado acaba de fazer merecia alguns pedidos de aclaramento e, nalguns pontos, também uma réplica.
Ficarei inscrito, e creio, que nesta caso, se justificará que seja garantida a minha intervenção para o próximo período de antes da ordem do dia. Na verdade não se pode vir aqui fazer uma declaração política destas e depois sentar-se na cadeira e não ouvir nenhuma espécie de réplica.

O Sr. Presidente: - Sr. Deputado Carlos Brito, agradeço a V. Ex.ª que no próximo período de antes da ordem do dia lembre essa situação.
Para uma interpelação à Mesa, tem a palavra o Sr. Deputado Montalvão Machado.

O Sr. Montalvão Machado (PSD): - Apenas quero dizer ao Sr. Deputado Carlos Brito que não fiz esta declaração e vim sentar-me com receio de qualquer pergunta ou de qualquer pedido de aclaração face ao que deixei dito.
Estou à sua inteira disposição, assim como à de todos os Srs. Deputados, para aclarar tudo o que sei. Oxalá todos estivessem na mesma disposição.

Aplausos do PSD.

O Sr. Presidente: - Para uma declaração política, tem a palavra o Sr. Deputado José Luís Nunes.