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II SÉRIE -C— NÚMERO 31

se localizam em todo o cérebro. Essa característica vai permitir que distingamos, desta panóplia de-afecções do sistema nervoso central, esta neuropatía'—a BSE—, a qual tem de ser bilateral porque, se for observada só num lado, já nos causará algumas dúvidas.

Quanto ao não fornecimento dos resultados laboratoriais, estranha o Sr. Deputado António Campos que nada tenha sido dito, mas acabei de dizer a W. Ex.* que o secretismo deste processo começou no próprio Laboratório. Não se compreende que, havendo técnicos com grande experiência, eles tenham sido dele afastados. Se a base do diagnóstico é um exame ao cérebro, um exame histopatológico para detecção das lesões, como é possível ter-se confiado esse assunto a um técnico sem qualquer experiência, à excepção do Dr. Azevedo Ramos? ..

Eu também fui excluído. Não é devido a qualquer razão especial, mas, ao fim de 30 anos, só se realmente fosse burro é que ainda nada tinha aprendido. Tenho uma experiência, uma vivência de diagnóstico de microscópio que me permite ter um certo à-vontade, até para fugir das rasteiras que podem surgir. O Dr. Rui Baptista e a Dr.* Madalena Monteiro são dois dos melhores histopatologistas que temos e também eles, porque trabalhavam comigo no Departamento de Patologia, foram afastados. Talvez esse afastamento se tenha dado por termos dito que era preciso ter cuidado, atenção e prudência.

Com certeza que temos vacas com BSE, mas, num país onde a doença não existe, não pode proceder-se da mesma forma como em Inglaterra. Os Ingleses têm manadas de vacas com BSE; se de uma determinada manada adoecer uma vaca com alterações nervosas, basta-lhes analisar o cérebro para diagnosticar a doença e o Sr. Deputado António. Campos, que me acompanhou por estas andanças da agricultura, há uns anos, sabe perfeitamente que isso sucede. • Por exemplo, até declararmos a existência da peste suína africana em Portugal, tivemos de fazer o estudo do vírus, confirmar que não se tratava do vírus da peste clássica — mas da africana— nem de uma salmonela, etc. Só depois, de procedermos a todos esses estudos.é que concluímos haver peste suína africana em Portugal.

Nessa altura, quando nos deslocávamos ao Alentejo, bastava dar uma facada num cadáver de um porco vitimado, abri-lo e observá-lo para sabermos tratar-se de peste suína, africana, mas, até estar declarada a doença, não nos atrevíamos a fazê-lo.

-Em relação à peripneumonia (PPCB), que, na sua área de incidência, tem vitimado muitos animais, antes de afirmarmos que havia peripneumonia em Portuga), tivemos de fazer a pesquisa do agente, que é um micoplasma. Foi nè-ctSSÍtfio isolá-lo no laboratório, observar ao microscópio as lesões provocadas. Já fiz dezenas de observações em matadouros: chego lá, olho para um animal, para as lesões da pleura e pulmão e digo: «Isto é peripneumonia, ponha aí no papel.» Por vezes, tal é possível sem ser preciso ir ao laboratório.

Passa-se a mesma coisa com a leucose bovina, que, quanto a mim, é muito mais grave do que a BSE para a espécie humana. No que respeita à leucose bovina, de início nós tínhamos um bocado de dificuldade no diagnóstico. Hoje, isso já se faz mais facilmente, há mais possibilidades, pois temos outros meios. •; '

Isto só para dizer-lhes, Srs. Deputados, que. quando uma doença aparece pela primeira vez no País não pode usar-se a mesma facilidade, a mesma ligeireza de diagnóstico que aquela que é feita num país onde ela-já está grassando .(como é o caso da Inglaterra). Dizer que não há, não digo, porque

sou um técnico consciente e porque tenho a certeza de que temos cá a doença. Simplesmente; ter a percepção ou a certeza é uma coisa; agora eu, como cientista, escrever um papel a dizer que temos cá esta doença porque fizemos estas e estas provas não o faço, porque pessoalmente não tenho provas para isso. Aliás, não sei se, na altura, as haveria no laboratório.' Penso que não, mas, como disse, estive à margem do processo. De resto, não me consta que tenham sido feitas. Nós áté tínhamos recursos — temos um microscópio electrónico, etc. Isto não quer dizer que seja sempre necessário recorrer ao microscópio electrónico, porque uma vez instalada a doença, as lesões histopatológicas são capazes de ser suficientes para fazer o diagnóstico.

Na primeira vez, é conveniente estar baseado noutros exames e até fazer-se o diagnóstico diferencial, porque por exemplo a própria doença de' Aujeszky pode provocar alterações nervosas. Aliás, todas estas doenças que tenho aqui a listagem podem provocar alterações nervosas. Portanto, nos primeiros casos que aparecem há que fazer exames bacteriológicos, exames virulógicos e toda uma série de exames que não permitam que amanhã nos venham dizer: «A doença se calhar não é BSE, é Aujeszky.» Nós, laboratório, podemos dizer com toda a frontalidade: «Não é, porque nós fizemos diagnósticos diferenciais, nós pesquisámos todas as doenças possíveis, temos a certeza de que não é essa.» Portanto, essa é a chamada «verdade científica». Qualquer pessoa, qualquer jornalista —com todo o respeito que tenho por eles — pode afirmar nos jornais o que quiser sobre o BSE. Agora, um cientista não pode fazer o mesmo, não pode ■ proceder da mesma maneira.

Entretanto, assumiu a presidência o Sr. Vice-Presidente da Comissão de Agricultura e Mar, Deputado do PCP Lino de Carvalho.

O Sr. Presidente: — Muito obrigado, Sr. Professor. Tem a palavra o Sr. Deputado Carlos Duarte.

O Sr. Carlos Duarte (PSD): — Muito obrigado, Sr. Professor, pela sua disponibilidade e pela intervenção que acabou de produzir.

. Afirmou que tinham sido enviados para o seu Departamento dois casos suspeitos. Gostava de saber se lhe foi dada alguma ordem de secretismo.dos resultados em relação a esses casos. Quando é que foram enviados? Relativamente a esses casos suspeitos, os exames podem indiciar a existência ou não da BSE?

Gostava também de saber o seguinte: relativamente ao comunicado a que há pouco aludi da Direcção-Geral da Pecuária do dia 4 de Maio passado, portanto antes de se iniciar a polémica na Assembleia da República, disse publicamente que os animais suspeitos de BSE — e refere as datas — apresentaram um diagnóstico histopatológico semelhante ao da referida doença, mas foram feitos outros exames e a análise epidemiológica levou à conclusão de que não havia a doença. Portanto, a doença não foi confirmada.

O Sr. Dr. Armada Nunes respondeu há pouco à minha pergunta dizendo que, depois do diagnóstico histopatológico, não havia mais nenhuns exames, que a análise epidemiológica poderia eventualmente não confirmar a doença, que o diagnóstico histopatológico era o último diagnóstico a ser feito.

Como autoridade científica que é em relação a esta matéria, gostaria de saber se considera ou não que, depois do